sábado, 12 de setembro de 2015

TESMOFÓRIAS – a Resistência das Mulheres

Temos numerosas dívidas culturais com os gregos antigos e sempre devemos agradecer-lhes pela sua engenhosidade na inauguração de vários instrumentos sociais essenciais para nós. Uma das mais belas criações gregas é a democracia. Vivemos em um mundo onde a vida e a opinião de um ser humano individual é valiosa, tanto quanto a vida e a opinião dos demais, independente de suas posses ou poder político. Foram os gregos quem primeiro admitiram isso e experimentaram um sistema político onde o povão pôde ter sua voz escutada na decisão dos rumos da sociedade. Rendamos preito aos gregos, ou helenos, como eles preferiam ser chamados.

Mas, como era de se esperar, já que se tratava de uma primeira experiência, a democracia grega tinha vários pontos que merecem reparo, embora estes pontos negativos não desmereçam seus esforços.
Um destes pontos é que a mulher não participava do governo, situação compreensível se pensamos que até hoje a mulher não tem os mesmos direitos e só no século passado começaram a ter direito a voto. Na sociedade grega a mulher era bastante segregada. Vivia interdita. Pertencia ao pai e depois ao marido que a guardava ciosamente em uma parte da casa chamada gineceu. No entanto, apesar de toda a opressão elas conseguiam preservar alguns costumes que lembravam a posição que ocupavam na sociedade pré-helênica. As Tesmofórias são um belo exemplo disso.

Tesmofórias eram festas das quais participavam apenas as mulheres. Nenhum homem podia presencia-las em nenhuma hipótese e elas tomaram o cuidado de nunca registrar o que faziam ali para que os homens não metessem o bico. Por isso hoje em dia os estudiosos sabem apenas que elas aconteciam, também que ali ocorriam rituais específicos para as deusas Core, Demeter, mas fora isso são um mistério tão real como é a alma das mulheres. Aliás esta é uma prova de que as mulheres são capazes de segredo, ao contrário do que se costuma divulgar por aí.

O dramaturgo Aristófanes criou uma peça onde um parente de Eurípedes (outro dramaturgo) se disfarça de mulher para participar da celebração feminina e é descoberto. Ele seria morto pelo tribunal de mulheres e só não o foi, porque o próprio Eurípedes foi negociar com as mulheres. A peça mostra que os homens gregos, apesar de todo o seu machismo, reconheciam às mulheres aquele seu direito a encontrar-se e celebrar-se sem a intervenção masculina.

E o tempo passou e à mulher nada mais restou que continuar resistindo, tantas vezes lançando mão de subterfúgios elaborados inconscientemente, outras tantas conscientemente laborando para manter-se em sua integridade e força, outras tantas instrumentalizando-se como veículo do próprio mal que a oprimiu... Hoje, vejo um mundo novo reacendendo o horizonte de uma época, espelho de um remoto passado (que Riane Eisler no excelente “O Cálice e a Espada” chama de gilânico – onde os gêneros se respeitavam como iguais), porém postado com vistas ao futuro.

Vejo esse futuro nas minhas amigas que sabem o que querem e dizem o que manda o coração, e, que conseguem escapar da fácil reação opositora, onde a afirmação de si é mantida pelo ato de denegrir o outro.
Este feminino acolhedor e forte me traz o esperançar de que nos fala Freire, o educador.


Recebam um abraço feminino de Aureo Augusto.

2 comentários:

  1. lulafonso@uol.com.br13 de setembro de 2015 13:04

    Acredito que o amigo vai gostar de ler "As bodas de Cadmo e Harmonia", do italiano Roberto Calasso. No Google se acha comentários. Um banho de mitologia grega em abordagem criativa e chapante...

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    1. Grato pela dica, meu amigo. Vou gostar tb de ler seu livro recém lançado.
      Abração e sucesso.

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