segunda-feira, 15 de abril de 2013

NOVOS (E ENGRAÇADOS) APRENDIZADOS

Estou em Salvador, passando pela maravilhosa experiência de aprender mais. Uma das coisas mais agradáveis da vida é saber que estamos diante de uma quantidade de coisas a aprender muito maior do que de coisas já aprendidas. Agora estou tomando um curso de ultrassonografia.

Ocorre que a equipe da Unidade de Saúde lá do Vale do Capão (Caeté-Açú) onde trabalho percebeu que necessitamos muito deste equipamento. Primeiro pensei em eu mesmo ter um e facilitar a vida do povo fazendo ultrassom (USG) no Vale para que o povo não precise se deslocar para Seabra, por uma estrada (pelo menos sua 1ª parte) terrível, enfrentando depois uma longa espera. Além de ter que pagar, com frequência, e valores mais caros dos que aqueles praticados em Salvador. Depois pensamos que talvez pudéssemos conseguir um aparelho para o posto e nisso estamos. Antevemos algumas possibilidades, e torcemos para que dê certo, se você, leitor souber de alguma coisa, conta pra nós. Lembre que o posto não dispõe de recursos.
Mas se chega o aparelho, alguém tem que saber o usa-lo e aqui estou eu, aprendendo feliz!

Ontem cheguei de viagem e no caminho me lembrei que havia deixado o livro de anatomia em casa. Por sorte o meu laptop recusou-se a funcionar e por isso, na hora que cheguei não consegui ler o e-mail de Marcelo, amigo em cuja casa estou hospedado. Como era pouco mais de meio-dia, fui ao restaurante Brisa comer. Lá chegando havia uma liquidação de livros excelentes, a preços ridículos. Assim comprei 3 livros de anatomia excelentes e um deles já vai para a nascente biblioteca científica do posto (aliás, doe livros bons – nada de coisa ultrapassada que você quer se livrar – para nossa biblioteca). Então revi que às vezes uma situação de impedimento – como o problema no laptop – pode ser uma oportunidade legal de compensar uma falha – o esquecimento do livro de anatomia.

Agora, no intervalo para o almoço do curso – partilhei a mesa com um colega extremamente simpático que, com os demais, contavam suas experiências nos postos de emergência de Salvador. Devo dizer que trabalhar no interior é maravilhoso, diante do que escutei. Este colega contou uma experiência que mostrou não apenas um exemplo dos riscos por que passam os médicos, como sua competência no jogo de cintura que lhe salvou a vida.
Uma senhora chegou morta ao pronto socorro. Os familiares estavam revoltados e, sem perceber que a mulher já falecera, ameaçavam os funcionários com revólveres em punho, afinal tratava-se de uma família, por assim dizer, “da pesada”. Quando o corpo deu entrada no serviço, o médico percebeu o risco que todos os funcionários corriam e a enfermeira de pronto lhe informou que a mulher estava morta. Diante da reação de revolta armada dos familiares, num momento de súbita inspiração o médico olhou para a enfermeira e disse que quem definia se a pessoa estava viva ou morta era ele. O que parecia ser uma conduta de arrogância, uma espécie de “cala a boca, ponha-se no seu lugar”, revelou-se a salvação de todos. Então tocou no pescoço e disse: Está viva e ato contínuo começou os procedimentos de ressuscitação, inclusive entubando o cadáver. A família assistia à distância os esforços inauditos da equipe na tentativa de salvar à suposta doente, já morta. Depois de algum tempo de esforços, o médico disse em voz baixa a uma colega que continuasse fingindo e que depois fosse anunciar a perda. Então foi explicar à família os procedimentos que estavam sendo realizados. A família sensibilizou-se com o esforço e quando a médica, por fim, veio com a triste notícia, todos já estavam “amaciados” e aceitaram com mais tranquilidade a morte da matriarca.

O médico conseguiu transformar uma situação vexatória em vitoriosa para a equipe que agora (havia na mesa dois colegas que presenciaram o fato) ri de uns momentos nos quais, com certeza na hora da confusão foram extremamente tensos. Como bem disse o referido médico: “Temos que ter jogo de cintura e levar a vida com graça”. E está coberto de razão.

Recebam um abraço grato de Aureo Augusto.

6 comentários:

  1. Xiiiiiii...coitada da enfermeira que confirmou o óbito. Ela vai ter que se mudar desse posto.

    Realmente está uma loucura, quem precisa de atendimento emergencial pelo Sus-to. O zelador de nosso prédio, vem penando, com toda a sorte de problemas envolvendo intestinos, fígado e sabe mais o que. E a mãe da minha diarista, com uma úlcera perfurada, foi mandada de volta, com um simples buscopan na veia. Se não fosse "a não hora dela", já estava do outro lado.

    Parabens. Certamente, como eu digo e repito, o Capão é sortudo demais. E agora tem até ultras.

    Desejo-lhe boa sorte....

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  2. Oh!querida, ainda não tem ultras! Esperemos que venha a ter.
    O SUS é uma coisa maravilhosa, no papel. Mas infelizmente não é implementado da maneira ideal. No entanto devo dizer que o que se faz já é maravilhoso.
    Creio ademais que a população tem hábitos bem nocivos para a saúde, sem o saber. A educação e a comunicação para a saúde carecem de maior implementação, para que pessoas como a mãe de sua diarista não precisem ter uma úlcera.
    bjs

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  3. Mas tb amigo, uma senhora com ulcera perfurada, ser mandada de volta, com um buscopan é demais. Né?

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    1. É, assim tá duro de aceitar...

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  4. É bom saber das suas iniciativas, Áureo, pois está sempre com o pensamento voltado para o bem-estar da população do Capão. Teríamos um país maravilhoso se um décimo de nossos políticos tivessem essa mesma orientação.
    A maioria das pessoas fala mal do SUS, e não lhes tiro a razão, temos que procurar sempre melhorar o que temos. Contudo, façamos uma comparação tranquila e desprovida de preconceitos: Como seria se nem desse serviço dispuséssemos?
    Não é uma situação irreal, sempre procuramos comparar-nos com países da Europa, com o Japão ou com os EUA mas o mundo não se resume a isso. E nem se garante que, em países desse naipe, sempre se obtenha um atendimento médico-hospitalar conveniente. Nem no Japão é tudo flores de cerejeira.
    Quanto ao incidente narrado, não se congratule tão cedo, Áureo, pois vejo que o Capão é uma região maravilhosa e pacífica, mas nada impede que coisas do tipo, aconteçam por aí. Sempre aprece gente de fora, né?
    Abraço sem SUS-to.

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    1. É isso mesmo Tesco, sem o SUS não seria fácil para nossa gente. Lembro qdo eu cheguei aqui no Vale. Não era fácil conseguir exames. Hoje está tudo mais fácil. Como vc disse, não é perfeito. Porém é questão de melhorar.
      No ano passado uma francesa e seu namorado quase me agridem no posto pq eu não quis atendê-los, mesmo sabendo que não era urgência, que não tinham direito por não serem brasileiros. Um argentino que atendi pq estava mal de saúde e ficamos compadecidos da situação me insultou asperamente pq eu não dispunha de medicações para ele. Sim, sempre vêm pessoas de fora...
      abraço.

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