domingo, 3 de julho de 2011

MENOPAUSA e REPOSIÇÃO 1

Embora pareça coisa inventada foi verdade: A mulher chegou no médico e comentou que já havia entrado na menopausa havia algum tempo e por isso ali estava para uma avaliação, e gostaria de fazer alguns exames para averiguar sua situação hormonal. Estava sendo atendida em uma clínica onde o cliente não escolhe o profissional. Então o médico verificou em sua ficha e viu que em uma consulta anterior, seu colega havia sugerido que ela fizesse reposição hormonal e ela recusara porque não sentia absolutamente nenhum sintoma. Não tinha queixas, a menopausa chegara sem nenhum problema, por que ela teria que usar reposição? O colega deixou o registro. Por isso o médico que a atendia disse que não pediria nenhum exame por causa daquela recusa. A atitude do médico reflete a crença muito disseminada de que toda mulher é obrigada a usar hormônios sintéticos quando entra na menopausa (isso sem falar no autoritarismo injustificado, da total falta de senso, da ausência do respeito pelo outro enquanto ser individual e autônomo). Para mim, esta crença reforça aquela idéia machista de que as mulheres são seres inferiores. Ora, se carecem de reposição a partir de certa idade é porque foram fabricadas com deficiência e precisam de recall. Vejamos outras histórias:
D. Ceres é uma jovem senhora de 97 anos de idade. Uma delícia total conversar com ela. Memória prodigiosa, humor à flor da pele, ironia fina e sensível, criativa, orgulhosa de si e de suas realizações, tanto na criação dos filhos quanto na produção de produtos que ajudaram na aquisição de recursos para o sustento da família – enfim, uma pessoa plenamente realizada... Um dia perguntei-lhe como havia sido sua menopausa. Respondeu-me que desapareceu sem nem dizer adeus. Nunca teve nenhum sintoma desagradável. Vejamos outro exemplo: Celicélia passou pela menopausa “numa boa”. Para ela, o fato de não comer carne foi importante, mas também notou que “cabeça boa, sabendo o que quer, tudo fica melhor” e acrescenta: “ter um bom companheiro, vida tranquila... quatro filhos; maravilhoso!!! Amo o meu marido e agora netos, frutos de um belo amor!!!”. Sua felicidade nos serve como guia. Lembro de um outro exemplo: Peguei carona com um amigo e a mãe dele estava no carro. A senhora me disse que o único sonho que teve na vida foi ter filhos. Não se preocupava sequer em casar. Queria apenas tê-los e cria-los. Teve-os e criou-os. Disse que, agora que os via a todos já donos de suas vidas, estava felicíssima cuidando dos netos. Perguntei-lhe como havia sido sua menopausa e a resposta dela foi a mesma. Não havia tido dissabores. Como também Beth, esposa de Luís, um casal que teve um importante papel em uma fase da minha vida. Beth era mãe de uma única filha que vivia no estrangeiro e não era a filha mais atenciosa da face da Terra. No entanto os idosos viviam sempre cercados de amigos, como eu à época, muito jovens. Eram pessoas deliciosas. Beth dedicava-se a traduções do francês ao português entre outras muitas atividades, sempre intelectuais porque não era dada a atividade física por conta de um defeito na perna decorrente de uma paralisia infantil. Um dia ela me disse que era muito feliz (coisa evidente) e que se sentia realizada. No ato perguntei-lhe pela menopausa. Como as demais antes citadas, nada sentira.
Na menopausa, a mulher muda de fase. Deixa de ser mãe de filhos ou filhas e passa a ser a representação da grande mãe. É a mulher sábia, dona do saber ancestral de todas as mulheres. Um saber secreto porque ser mulher é um segredo (pelo menos para nós, homens). Aquelas mulheres que, durante a vida, construíram um conhecimento de si onde a auto-estima é forte, tendem a não ter sintomas. Em medicina nada é absoluto, porque as variáveis são muitas, porém sentir-se completa, realizada, realizadora e ativa é fator importante para uma menopausa tranquila. Mas hoje as mulheres são confrontadas com desafios bem grandes. Aquela senhora que apenas queria ter filhos, e realizou-se com isso, hoje seria bombardeada com a mensagem de que isso não basta. Incute-se a idéia de que para ser mulher moderna tem que trabalhar fora, realizar-se profissionalmente. Nada contra, porém o imperativo absolutista não convém. Para muitas mulheres basta a família e isso é lindo, assim como para outras a filharada não era essencial para a felicidade e sentimento de realização. Beth realizava-se graças à vida intelectual que levava e não por causa dos filhos; enquanto D. Ceres realizou-se pela combinação de filhos com outras atividades externas ao lar. E você que agora está lendo? Sei que Jussiara tem uma vida intelectual, uma relação com o marido e com um lugar chamado Cações que lhe embalam a vida. Pena que em nossa sociedade as tensões são maiores do que as soluções naturais. Você gosta de sua vida profissional? Invista. Mas, não se deixe levar pelo imperativo categórico atual de que tem que ser grande em tudo, maior em tudo, melhor em tudo. Tal postura apenas complica a vida, e dificulta as relações interpessoais tão necessárias para a vida e a felicidade. Corrói a paz interior.
Porém devemos lembrar que a menopausa, além de um fenômeno cultural e social, é algo que interessa à química do corpo. Algum tempo antes da menopausa os ovários já começam a reduzir a produção de estrógeno, um hormônio responsável pelas características sexuais na mulher. Este hormônio, além de contribuir para a forma curvilínea do corpo feminino, contribui para uma maior fixação do cálcio nos ossos, para a circulação, resistência da pele e das mucosas, entre outros efeitos. Consequentemente a mulher pode vir a apresentar algumas alterações físicas. Por que isso, se a mulher, naturalmente, não veio com defeito de fabricação?
A resposta a esta pergunta você verá na próxima postagem. Não se preocupe, é questão de dois ou três dias, pois já está pronta. Apenas não quero pôr um texto excessivamente longo e ademais, desejo que reflitamos um pouco sobre os aspectos psicossociais da menopausa. Eis os pontos que incidem sobre a questão gerando dificuldades para a mulher (alguns já foram mencionados):
• Realização pessoal e profissional – atualmente as metas são excessivamente grandiosas. Somos induzidos a não se satisfazer com pouco, ou com o médio.
• Ainda neste item, não basta ser mãe, há que ser mãe incrível ao mesmo tempo em que é poderosa executiva.
• A culpa bate quando filhos e maridos não correspondem a estas expectativas, sendo maravilhosos filhos, sem problemas e excelentes maridos sem defeitos.
• O culto à juventude tornou-se quase uma inquisição. Ser idoso é uma espécie de heresia. Cabelos brancos são como aquela marca que os nazistas obrigavam os judeus a usar. Então, para se realizar a mulher terá que ser profissional de destaque em sua área, mãe perfeita e jovem (mesmo após a menopausa), o que torna bem difícil a realização pessoal.
• O culto ao ter em detrimento do ser implica identificação com as posses materiais o que traduz perda de consistência interior.
Estes e outros aspectos contribuem negativamente para uma menopausa tensa (e uma vida tensa também). Laborar no sentido de minimizar-lhes o poder em nossas vidas e minorar-lhes as consequências é essencial para que este importante momento seja mais sadio. Convido às leitoras e aos leitores a pensarem nesses pontos.
Recebam um abraço psicossocial (rsrsrs) de Aureo Augusto.

9 comentários:

  1. oi Aureo, muito bom ler o que escreveu sobre a menopausa. Me recuso a reposição pelos mesmos princípios. A menopausa é uma etapa da vida q deve ser encarada naturalmente Tive uma avó maravilhosa q partiu com cem anos e uma mãe super ativa e feliz com os afazeres domésticos, filhos e netos.Infelizmente o mundo moderno impõe algumas ditaduras que por vezes nos vemos compelida a aceitar como verdades absolutas. Cabelos brancos e reposição hormonal são apenas algumas delas...
    Aguardo a continuação do tema. Muito legal o seu trabalho de Beija-flor!!!
    abs
    Cristine Pires

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  2. Oi, Aureo
    A reposicao hormonal eh uma das questoes com que me deparo no dia-a-dia no consultorio. Na verdade nao existe receita pronta nem a favor, nem contra a reposicao. Existem sim beneficios inequivocos que podem ser alcancados com a TH, como a reducao da perda de massa ossea, o equilibrio das taxas de colesterol, triglicerides e acucar, a manutencao da libido, etc, porem, cada mulher tem sua historia e suas necessidades subjetivas. Costumo abrir um dialogo com minhas pacientes onde as questoes principais que coloco p/ que elas reflitam sao: reposicao hormonal, eu preciso?, eu posso?, eu devo? Nem toda mulher que precisa, pode ou deve fazer TH. Nem toda mulher que deve e precisa, pode fazer TH. Cada uma eh uma e isso deve ser respeitado. Alem disso, costumo dizer a elas que nao basta usar hormonio. Tem que cuidar da dieta e da atividae fisica. E, como voce bem colocou, as questoes emocionais, as realizacoes e frustacoes de cada uma sao importantes determinantes da intensidade dos sintomas, porem, a falta ou pouca intensidade dos sintomas nao sao determinantes p/ contraindicar a TH,ja que um dos objetivos que se quer alcancar eh uma melhor qualidade de vida, sem osteoporose, sem doencas do coracao, etc, na idade mais avancada.
    Em resumo, a TH pode sim ser um grande beneficio p/ a mulher, desde que bem indicada e adaptada as necessidades de cada uma.
    Bj
    Solange

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  3. Olá Aureo

    Como sua colega médica quero dar um depoimento: Eu nunca tive TPM ou qualquer outro problema com menstruação. Para mim era uma manifestação fisiológica na mulher e sempre achei que passaria pela menopausa sem dar bola para ela. Mas para minha supresa, tive muitos sintomas como alteração importante do sono, fogachos e me sintia muito fragilizada. Isto me gerou um ciclo vicioso , porque era difícil eu aceitar ter sintomas, ja´que para mim fazia parte da fisiologia da mulher sem alterar em nada todo o potencial feminino. Usei temporariamente fitoterapia hormonal e fiz um trabalho comigo mesma para aceitar que mesmo achando que tudo era muito normal eu como simples normal poderia ter sintomas.
    Usei os medicamentos por 6 meses e atualmente estou sem sintomas e sem medicamentos. Na realidade o corpo ás vezes não obedece muitas vezes a mente consciente e sim ao inconsciente.
    Um grande abraço. Márcia

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  4. Sincronicidade este seu post, Aureo! Passei o final de semana lendo sobre psicossomática e a sexualidade feminina.
    Um abraço pra vc! Aguardo os próximos posts!

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  5. Estes comentários devem ser lidos por todos. Mostram o bom senso em letras. Cristine nos traz uma realidade comum. Nós, que tto falamos em liberdade, que queremos autonomia, nos impomos ditaduras. Ditaduras estas que são fruto da falta de bom senso e do diálogo, conforme mto bem coloca Solange. É verdade, algumas usarão, outras não. Depende de mtos fatores, sociais e pessoais, com a subjetividade de permeio. Márcia teve uma experiência digna de nota, qdo rebelou-se contra a natureza (interior) sem entender o porquê dos sintomas, mas aceitou e nem precisou manter o tratamento, tendo encontrado com a ajuda do tratamento o equilíbrio. Mto legal! Tão legal qto a sincronicidade, mais frequente do que pensamos, não é Mecka?
    Abraço grato.

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  6. Meu caro amigo, Dr.Áureo.

    Que post maravilhoso e agradeço por ter citado o meu nome e do meu querido vilarejo.

    Vou citar um trecho do livro, A Aceitação de Si, do teólogo italiano Romano Guardini.

    " CADA ETAPA DA EXISTÊNCIA ENCERRA UM PROFUNDO PROCESSO DE RENOVAÇÃO. CABE A NÓS DESFRUTARMOS AS EXPERIÊNCIAS OFERTADAS POR CADA MOMENTO , EM VEZ DE NOS ATERMOS ÀS FALTAS E AOS DESAJUSTES."

    Eu sempre me pergunto: A quem interessa a TRH?

    E antes? Como viviam as mulheres?

    Minha vó paterna morreu ao 97 anos, nunca teve nada relacionada à falta dos hormônios sexuais.

    Minha vó materna tambem não, embora tenha falecido aos 78 anos.

    Todas as minhas tias que estão vivas, já passaram dos 80, não tem osteoporose e minha mãe fez 80 anos com uma saúde ótima. E nunca fizeram nada para repor um hormônio, que, naturalmente vai se extinguindo e o nosso corpo vai se adaptando. Ele não cessa de vez, não acaba de vez. E a natureza é sábia e certamente vamos encontrar um ponto de equilíbrio.

    Eu não tive nenhum problema com a minha primeira menstruação, fui uma adolescente tranquila, nem acnes eu tive, engravidei, não tive ganhos de pesos ou inchaços nas gestações mas.............tenho sentido a menopausa chegando. (se é que já não se instalou.).

    Como escreveu Marcia, em seu post, eu tive as mesmas coisas que ela.

    Os fogachos são terríveis, a falta de sono (logo eu, uma dorminhoca de primeira), angústias, ansiedades, aumento de peso, letargia, falta de libido, secura vaginal.

    O pacote veio completo e logo na primeira remessa...rsrsr, me pegando de surpresa. De uma hora para outra, eis que me vi me abanando dentro de uma loja climatizada com ar condicionado ao máximo e o suor descendo solto.

    Chorei até por uma barata morta, contrariando o meu pavor a elas. Ela resolveu entrar no meu apto, voando e comecei a gritar e marido veio e tascou o porrete nela e depois eu chorei.....com pena da dita cuja.Normal??? Claro que não. Mas o estradiol dando os últimos suspiros, não perdoou esta crise de choro..rsrsrs

    Continua....

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  7. Continuando.......

    Não quero fazer a reposição muito embora sou imposta a isso, pela gineco, por amigas, pela mídia.

    Sei que os hormônios sexuais não foram programados para durarem a vida toda e não vou colocar em meu organismo, hormônio sintético feito a partir da urina de égua.

    Mas sei que preciso driblar os sintomas e buscar uma boa qualidade de vida. E aproveitar, com sabedoria e equilíbrio, esta nova fase, este novo ciclo.

    Mas este é o meu pensamento, embasado no que eu leio, pesquiso e introjeto. Cabe a cada uma, a decisão porém não se deixem dominar pela indústria farmacêtico, pela sociedade médica, pelas amigas, pelas camaradas, pela mídia, aonde colocam a TRH como uma barca salvadora, como a fonte de juventude, com a promessa de ossos fortes e de melhor qualidade de vida.

    Se fosse assim..........

    Coincidência ou não, TODAS as minhas amigas que fizeram a terapia, ao interromperem devido aos muitos efeitos colaterais, desenvolveram episódios de depressão, além de grande aumento de peso, durante o uso.

    Assim como querem nos impor de forma aleatória e quase como uma evangelização, também temos o direito de dizer NÃO e esta forma muito artificial e talvez, muito agressiva de se manter os níveis destes hormônio circulando em nosso organismo.

    Desculpe o longo post, amigos, mas escrever é o meu maior deleite.

    Recebam um abraço bem vigoroso.

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  8. Fátima Santiago4 de julho de 2011 10:31

    Muito sensatos todos os depoimentos, inclusive o de Jussiara Melo. Mas o lance mesmo, o imprescindível, é ter, como o próprio Aureo falou e outras pessoas falaram, um objetivo na vida, ser uma pessoa realizada. Isso já é meio passo para não sofrer tanto com a menopausa.

    Abraço em todos. Espero o próximo post.

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  9. Imposição NÃO. Mto bom o discurso de Jussiara em defesa daquilo que deveria ser considerado direito natural. Temos o direito de definir o nosso destino, desde que, evidentemente, não prejudique aos demais. Inclusive no que respeita à nossa saúde.

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