terça-feira, 8 de março de 2011

CARNAVAL, ANSIEDADE e HÁBITO

Aí está o carnaval carnavalizando cada átomo de um Brasil que nele vive. Milhões de pessoas que deixam de ser pessoas para travestirem-se de foliões. Anonimamente colocados em torno de tambores e loucuras etílicas. Uma animação toma conta da vida como se nada mais houvesse. Ansiosamente lançam-se aos magotes, homens e mulheres, na gangorra da felicidade momesca. As crianças acorrem a aprender a farra. Nada de mal na farra, mas porque esta ansiedade da festa, de mostrar para todos uma alegria de trio elétrico? Escrevi o texto abaixo em 2006 e só tem a ver com o carnaval porque nele e seus semelhantes com frequência vejo a ansiedade de disfarçar a ansiedade.
Os dois maiores inimigos da saúde, ocorre-me, são a ansiedade e o hábito.
O primeiro está sumamente disseminado em nosso meio. É uma espécie de praga, uma epidemia. Parece que em nossa sociedade todos nós passamos por um curso para nos tornarmos ansiosos. O currículo é suficiente para obter um alto nível de sucesso, e são poucos os maus alunos que escapam ilesos desta escola. Às vezes penso que o processo começa antes de nascermos. Os medos, os receios de nossas mães, preocupadas com a sobrevivência do rebento, com as alterações que o corpo delas está sofrendo no evoluir da prenhez, também angustiadas porque seus companheiros não demonstram participar da gravidez, quando não as abandonam, tristes porque depois do parto pode ser que seus corpos não mais voltem à elegância suposta ou imaginária que tinham antes, enfim, uma infinidade de motivos, que por meios químicos e outros insuspeitos atingem a criança no ventre e as “educa” para que no futuro sejam dignos ansiosos. Depois vem o parto, com sua carga de receios, pois em nossa sociedade não confiamos que um evento normal (como a gravidez) resulte em outro evento natural que é o nascimento. Uma vez nascido o neném é manipulado nem sempre com delicadeza, e em seguida, mais medos: Haverá leite? O peito vai cair? Entre outras preocupações. A criança cresce bebendo as dores dos pais, comendo suas alegrias, sorvendo apreensões que não são suas. Na mistura de amor e inquietação vai desenvolvendo sua capacidade de ser ansioso. A escola com seus professores e professoras tantas vezes insatisfeitos (com sua razão, mas o que a criança tem a ver com isso?); a seu tempo: O emprego, seja porque não há, seja por freqüentemente insatisfatório...
Não dá para descrever todos os detalhes desta instrução a que somos submetidos. É muita coisa! Importa dizer que com o tempo, adquirimos o hábito da ansiedade. Esta inquietação penosa passa a fazer parte de nossas células. Aí comemos correndo, vivemos no futuro e deixamos de gozar o presente, nos sentimos permanentemente ameaçados...
E os hábitos. Também apreendemos certos costumes que nos conformam. Quando não podem ser realizados, perdemos nossa identidade e nos sentimos como crianças no meio da praça constatando que a mãe desapareceu. A repetição perene dos mesmos padrões de pensamento, e dos regulares costumes que nos modelaram têm o dom de mitigar e paradoxalmente nutrir a ansiedade. Funciona quase como um Transtorno Obsessivo Compulsivo. Realizamos a tarefa (como se sem ela o mundo fosse sofrer alguma hecatombe) e logo após nos sentimos novamente vulneráveis. Assim seguimos nossos dias. E que ninguém se engane. Os jovens dizem que querem sair da rotina, e pensam que saem, mas seus pensamentos e suas crenças aí estão conduzindo-os pelos mesmos desfiladeiros que seus pais passaram, apesar de travestidos de novidade.
Encontrar solução para esta situação deveria ser um movimento global, tão forte quando o movimento pelo meio-ambiente (inclusive porque este sofre muito graças a nossa ansiedade). Às vezes quando meus hábitos anacrônicos me tomam, percebo que só me resta respirar. Respiro. Então me vem a possibilidade de reflexão ou contemplação. Ocasionalmente instala-se um sentimento de comunidade com o Universo. Uma forma de paz. Não significa que me sinta protegido contra a possibilidade de acontecimentos nefastos vindos, por assim dizer, do nada. Ocorre que de repente, em um átimo e nem sempre por longo tempo, percebo que não importa o que aconteça, aqui estou, eu sou. Se a ansiedade tem em seu bojo o medo do aniquilamento, estes momentos informam que o existir é irrevogável.
Recebam um abraço carnavalesco (rsrsrs) de Aureo Augusto.

10 comentários:

  1. Aureo, um abraço ansiolítico pra você.
    bjo

    ResponderExcluir
  2. O parto de mainha, para que eu nascesse, foi domiciliar e bem natural, com parteira, inclusive.

    Vc relata o mundo cada dia mais ansioso, e eventos naturais, como gestar e parir, viram bicho de 7 cabeças, gerando angústias e ansiedades.

    Pois bem: este parto natural de mainha, virou quase uma natimorta, ou seja, eu, pois fiquei entalada na vagina dela e foi preciso o uso do fórceps, sem anestesia e deixando uma sequela imensa em seu períneo.

    Sou uma pessoa ansiosa e sempre tive episódios de angústias desde mais tenra idade.

    Mainha sempre refere o meu nascimento, como uma coisa muito dolorosa embora, sendo primeira filha, primeira neta, meu nascer foi festejado até com champanhe.

    Nas minhas duas gravidezes, pedi parto cesáreo pois não queria passar pelo o que minha mãe passo e Graças a Deus, minhas cesas foram ótimas e meus filhos saudáveis e nem um pouco ansiosos....

    Sou alegre, comunicativa na medida certa, intimista, do bem mas........continuo ansiosa e vez ou outra, sinto angústias.

    E não gosto do Carnaval, somente o feriadão que ele nos traz.

    Já fui fuliã, já pulei atrás do trio, quando o Carnaval era arte.

    Atualmente, fico até com vergonha de tanta esculhambação. E como eu fico no meu refúgio, eu nem lembro que o Carnaval existe e só fico ansiosa na hora de retornar a Salvador..rsrsr

    Abraços zen.

    Jussiara

    ResponderExcluir
  3. Você falando assim, Áureo, deixa a impressão que os sentimentos são transmitidos pelo sangue ou por fator genético. Na verdade isso não se dá, embora seja evidente que algumas emoções dos pais possam acarretar transtornos nos filhos. Mas, de modo geral, a emotividade humana é uma coisa intrínseca de cada pessoa e é isso que faz de cada um, um indivíduo único.
    Segundo as teologias católica e evangélica, Deus forma cada individualidade no momento da concepção física, de um modo único; de acordo com os ensinamentos espíritas, cada indivíduo tem uma história prévia, em que são forjadas as tendências, dificuldades e sensibilidades em milhares de encarnações. Portanto, seguindo-se qualquer corrente doutrinária que se queira, excluído o materialismo, não serão alguns meses de comportamento dos pais, durante a formação do corpo da nova criatura, que irão moldar suas características psicológicas.
    A grande quantidade de pessoas ansiosas, na atualidade, pode causar essa impressão, mas isso, provavelmente, é resultado de situações na infância, e não no período intra-uterino.
    Seja como for, no entanto, eu não sou carnavalesco. Rerrerré!
    _Abraço.

    ResponderExcluir
  4. Márcia Filgueiras14 de março de 2011 07:59

    Olá, Aureo!
    Gostaria de saber se vc ministra cursos extensivos sobre fitoterapia, na Chapada. Eu e um grupo de colegas (nutricionistas e estudantes de nutriçao) estamos interessadas em cursá-lo, caso a abordagem seja mais voltada para a parte prática. Agradeço desde já a atençao e aguardo retorno!
    Att, Márcia Filgueiras.

    ResponderExcluir
  5. Essa de abraço ansiolítico é mto boa, Ana! Pensei comigo que todo abraço é ansiolítico, pois nos traz para o presente, uma vez que um dos aspectos da ansiedade é descolar-nos do qui e agora.
    Jussi, seu parto não foi fácil, mas foi há mto tempo. Tenho certeza de que na medida do seu crescimento a ansiedade perdeu terreno, pois, viver em mto é reeducar-se. Veja como Tesco aborda a questão. Para ele, a chave são as encarnações, idéia (ou proposta) que tem a minha simpatia. No entanto, Tesco, vivemos esta vida no mundo desta vida e os acontecimentos dela com certeza têm uma forte influência. Quiçá maior do que a do passado se me refiro ao plano dos acontecimentos superficiais. Não sei onde, no meu texto, vc encontrou que dou a impressão que os sentimentos são herdados. Mas em mtas medidas o são, uma vez que, a despeito de tudo aquilo gravado em nós, por Deus, ou pela evolução, aprendemos com os nossos pais(ainda bem!).
    Esse assunto pode dar pano pra manga!
    Oi Márcia,
    Ministro cursos sobre neo-hipocratismo, sistema terapêutico que inclui, porém não se limita, a fitoterapia. No momento, não há nenhum curso programado. Fico feliz em saber que tem um grupo interessado. Isso é mais um sinal de que tal tema tem atraído a boa vontade das pessoas.
    Recebam um abraço do tipo Ana, ou seja, ansiolítico.

    ResponderExcluir
  6. Muito, muito bom. Coincidência...estava penando sobre o assunto antes de acessar o blog. Respirando para não cair na monotonia da repetição do hábito contemplei o vazio ... até que Ele não é tão feio assim ... risos. Confesso que tenho dificuldades em alcançar este sentimento de comunidade com o Universo ... talvez pq o “Universo” do mundo contemporâneo não seja tão agradável a ponto de desejar comungar com ele ... talvez pq ainda esteja presa ao “Universo” do meu umbigo. Sigo refletindo, Luciana.

    ResponderExcluir
  7. Errata. Ato falho. Eu quis dizer “pensando” e não “penando”.
    Luciana.

    ResponderExcluir
  8. Nossa LUciana! vc fez uma auto-avaliação de peso. Penou (rsrsrs).
    Aureo Augusto

    ResponderExcluir
  9. "Ocorre que de repente, em um átimo e nem sempre por longo tempo, percebo que não importa o que aconteça, aqui estou, eu sou. Se a ansiedade tem em seu bojo o medo do aniquilamento, estes momentos informam que o existir é irrevogável."

    Aureo, voce colocou em palavras tao simples uma coisa tao imensa. Eu fico pensando aqui comigo em imprimir essa sua sentenca e colar em todas as paredes da casa e do escritorio para me lembrar de agradecer a Deus pela consciencia.

    Meu Rei, voce arrasou.

    ResponderExcluir
  10. Aureo, tanto tempo....concordo com tudo que voce escreve sobre ansiedade e habitos, faz tempo que não concordava tanto com voce , a nossa vida é ansiosa e cheia de hábitos,más este seu artigo chama minha atenção para conhecer melhor a propria, a dos outros, e assim enteder melhor tb,que ainda bem, não sou só eu ....graças a Deus !! e que Deus tb nos dotou com uma qualidade que podemos usar sempre...mudar...não é fácil mas tb não é impossivel, e ter a consciencia de que somos moldados a ter hábitos que podemos mudar sempre que queiramos e precisamos, assim como tb lembrar que respirar ajuda e muito a diminuir a ansiedade, outra coisa que aprendi com respeito a ansiedade é que en geral ela responde as expectativas dos outros sobre nós, permissão que nós damos para que isso aconteça, porque assim aprendemos desde o ventre. bom, após ler este artigo tenho mais vontade de viver menos ansiosa e de mudar alguns hábitos que não gosto, mesmo que aparentemente não sejam ruins... pros outros... rsrsrsrsrs. Lembranças desde o Chile....obrigada sempre...

    ResponderExcluir