sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MOMENTOS DIFÍCEIS 2 - estar do lado de cá da dor

Hoje desejo comentar a experiência de estar do lado de cá, ou seja, como doente ou acompanhante de um enfermo. É angustiante esta experiência, mesmo sendo médico. E, a UTI é um lugar terrível. Para mim foi doloroso ver um homem como meu pai, tão dono de si, prostrado, cheio de tubos e agulhas, ruídos estranhos ao redor, pessoas estranhas (embora cuidadosas) labutando com seu corpo. Pior: perceber que apesar de todo o esforço, das medicações e dos conhecimentos médicos (aos quais sou muito grato pela sua dedicação), o tempo só trazia más notícias; aquele período foi uma amarga corrida de obstáculos paradoxais, onde era como se estivéssemos correndo com a testa presa a uma parede intransponível e inamovível. Apenas a estrada do tempo correndo sob os pés, perene, modorrenta e dura. Nenhuma resposta. Nenhum som que não os dos aparelhos. Vazio de esperanças o tempo era apenas mais uma das amarras que o prendiam ao leito. Por fim a sensação de que de alguma maneira meu pai já estava deslocado daquele corpo. Um deslocamento que no final já não implicava dor física, uma vez que estava sedado (o que em meu sentimento piorava as coisas na medida em que complicava, ou melhor, impedia qualquer comunicação, amplificando a sensação de desvio vital na relação corpo/espírito ou corpo/consciência), mas que não impedia a idéia, crença ou sensação de dor psíquica, porque inconscientemente me colocando na situação dele, causava-me profundo desconforto sentir-me como quem não consegue articular o corpo, ou, dito de outra maneira, articular com o corpo. A angústia que senti foi muito grande na medida em que entendia que já não havia ali aquela pessoa, ou, melhor, que aquela pessoa, conquanto permanecesse existindo, não existia naquele corpo, ou com aquele corpo, ainda vivo, porém inoperante. Em que medida meus dedos acariciando-lhe a fronte alcançava-lhe a consciência? Onde o sinal de que seu nome, pronunciado pelos meus lábios, atingiam algum lugar onde ele se sentisse ele mesmo? Confesso que a partir de dado momento, em que era muito claro que não havia retorno e que qualquer miraculoso retorno implicaria numa vida de subsistência que representaria uma vida vitalmente marginal, desejei que os médicos desistissem de tentar algo que conquanto atendesse a um imperativo profissional (talvez discutível), representava a manutenção de um estado inadequado de viver, exatamente por ser um não viver. Meu pai, ao contrário de outros na mesma UTI, estava com suas funções vitais bastante comprometidas e, por isso, me perguntava como seria a sua vida se, na hipótese de um milagre, voltasse a adquirir alguma consciência. Talvez tivesse que subsistir o resto de seu tempo em uma UTI. E é isso viver? Vi um senhor ser conduzido paciente e amorosamente pelo fisioterapeuta e outros funcionários para fora da UTI e assim poder olhar momentaneamente o jardim abaixo e sentir a luz do sol. Emocionei-me pela bondade daqueles funcionários e o rosto do homem me dizia que ainda havia justificativa para a sua luta. Não sentia o mesmo olhando para as feições macilentas e o olhar vidrado de meu pai. Talvez estas palavras dolorosas sejam expressão mais de um desespero do que de uma necessidade que está além da dor, mas ouso colocá-las no papel porque insisto em que merecem contemplação. Peço que sejam objeto de reflexão. Porque acredito que elas podem nos fazer pensar no que é efetivamente estar vivo. Penso que podemos pensar o ato de viver em seu sentido pleno como a possibilidade de ter a possibilidade de ser pleno. Para tanto carecemos de algum grau de autonomia ainda que seja apenas mental (indissociável da emoção). Ora, meu pai, estava em uma condição que no mínimo teria que permanecer sedado, caso (repito) miraculosamente saísse do quadro. As restrições seriam tantas que certamente não viveria e mal subsistiria. Mas o que subsiste não é gente.
Claro que na hora não pensei nisso tudo e nessa maneira. Apenas sentia uma dor que tomava o corpo e o tensionava, com epicentro na área cardíaca. Ainda agora, dias após sua morte, quando escrevo estas linhas, percebo em mim um cansaço inusitado, como se a pressão que vivi houvesse durado meses ou anos e o meu ser careceria, portanto, de meses para recompor-se. Quero reiterar minha gratidão àqueles que, na UTI do Hospital Santa Isabel, cuidaram tão atenciosamente de meu pai e também de nós, familiares, mas também quero que pensemos um pouco sobre o significado da vida, a partir desta experiência dolorosa e desafiadora.
Recebam meu abraço, Aureo Augusto.

8 comentários:

  1. Meu caro amigo, Dr. Áureo.

    Apesar de ter lido os seus posts eu não postei porque eu estava ilhada tecnologicamente, ou seja, em Cações, praticamente off line e ou lia, ou escrevia.

    Estes dias estou em Salvador e online.

    Eu sei exatamente a sua dor, pela perda do seu querido pai. Sei mesmo.

    Perdi o meu, em circunstâncias parecidas, há 15 anos atrás. E me sinto orfã até hoje, com a idade que tenho.

    Sinta-se abraçado e confortado por mim. Elevo aos Céus uma oração para que ele seja acolhido pelas Asas Benditas da Espiritualidade Superior, comandada pelo Amado Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.

    Um grande abraço para vc e toda a sua família.

    Jussiara

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  2. nestes momentos os conhecimentos xamânicos são interessantes uma vez q percebendo o desenlace do corpo físico, ou a preparação do espírito para este desenlace... eles entoam cânticos de louvor, cânticos de boa viagem, cantam, e até dançam em reverência ao ente que parti para o outro lado da Vdia!
    quado falastes que percebestes teu pai neste deenlace... fiquei muito comovido.
    obrigado por partilhar um pouco do teu crescimento / amadurecimento conosco.
    Washington Bacelar

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  3. Prezado Áureo,
    Há 10 anos, durante a passagem de meu pai "pro lado de lá", senti exatamente tudo que vc revelou aqui...e ao ler seu depoimento tão sentido, agradeci á Deus por ter alguém que soube expressar a angústia de ver um ser amado sendo submetido aos "esforços" da medicina, pra ser mantido "vivo", quando ,na verdade , a gente sabe que a vida real está na alma...além desse corpo perecível... Na minha vez, conversei com meu pai sedado e "inconsciente" na UTI e o liberei de toda e qualquer preocupação que ainda o prendia ao corpo debilitado...poucas horas depois ele partia, com um certo sorriso nos lábios( acredite!). E pelo que sinto e sei ele está numa VIDA muito legal atualmente...e tenho certeza que seu pai também está , melhor que antes! Sinta minha solidária presença!Obrigada por suas palavras alentadoras!Fica com Deus! Abreijos, Márcia

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  4. Aureo,

    Lendo seu texto, me transportei aos últimos momentos em outubro de 2010 que passei ao lado da minha querida mãe, que aos 82 anos, bem vividos, se foi, não continuarei pois as lágrimas tomaram conta de mim.
    Abraços!!
    Forças!
    Socorro

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  5. Pois bem meu amigo... Agora é a hora da práxis,com todo respeito pelo fato.
    Agora é a hora de darmos um up grade em nossas almas através da "compreensão" do ocorrido.
    Como você mesmo disse ele existe ainda,e eu assevero:em alma ou dirigente do corpo que ficou!
    Penso que nessas horas devemos nos portar de maneira a honrá-los nesta "NOVA" vida!?
    Infelismente esse momento ainda é difícil no planeta, para todos nós, por conta da inversão das informações sobre a vida.
    Minhas vibrações de consciência para empreendermos novos rumos.
    Fique bem amigo...
    Seja forte...

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  6. Os depoimentos e comentários de vcs são algo que me enriquece. Dizem que certa vez Buda estava meditando qdo uma mulher em prantos pediu-lhe que devolvesse a vida a seu filho morto. Então o iluminado disse-lhe que o faria de bom grado se ela trouxesse notícia de alguma casa onde não tivesse ocorrido uma morte. A mulher saiu e após visitar inúmeras casas retornou compreendendo que a morte é apenas parte de um processo.
    Grato a todos,
    Aureo Augusto

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  7. diva Luiz da Silva20 de janeiro de 2011 14:49

    Oi, amigo Doutor,
    Sempre lembro de você com carinho especial e lhe desejo muita paz, luz, saúde e harmonia. Tirei uns dias de férias e tem um tempo que não acesso seu blog. Só ontem fiquei sabendo do acontecido através de uma amiga. Desejo a você e toda família muita amor e boas lembranças do afeto perdido. Com afeto especial, Diva e Nildo.

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  8. Grato amiga,
    ainda bem que os momentos difíceis tendem a ser substituídos na memória pelas lembranças felizes.
    Abraços

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