quarta-feira, 1 de julho de 2009

PASSEATA NO CAPÃO

O dia nacional do diabetes foi há alguns dias, mas a proximidade das festas juninas nos impediu realizar qualquer atividade. Mas não nos esquecemos e ontem (dia 30/6) fizemos (a equipe do posto de saúde) um movimento no Vale do Capão por este dia. Organizamos uma passeata para atrair a atenção dos moradores para o assunto. Como complemento ocorreu-nos verificar a glicemia (nível de açúcar no sangue) dos moradores. Gleiton, o enfermeiro e coordenador do posto (meu chefe) e eu conversamos com o secretário de saúde (José Carvalho) o qual gostou da idéia e se dispôs a conseguir as fitas para as medidas da glicemia em número de 200 e talvez mais; também conseguimos da prefeitura a promessa de um carro de som no dia anterior avisando a população do evento. As Agentes Comunitárias de Saúde avisam nas casas, porém o reforço do carro de som é essencial, já que na época das eleições a rádio daqui, que prestava serviços inestimáveis a população, foi fechada – sem ela tudo ficou mais difícil. Tivemos um momento de tensão, porque infelizmente, em que pesem os esforços do secretário a prefeitura não providenciou as fitas de exames, tampouco o carro de som. Sem o carro de som veio menos gente do que o previsto, o que em alguma medida foi bom porque tivemos poucas fitas (e secretário, já sabendo que a prefeitura não providenciaria o material, arrebanhou o que pôde), mas suficientes para o número de participantes (82 pessoas). Como o carro de som não veio, menos pessoas vieram e assim deu tudo certo. Porém devemos como cidadãos perguntar-nos se queremos manter um padrão de mediocridade ou se desejamos migrar para um padrão e excelência. Podemos nos alegrar porque dois erros acabaram por gerar um pseudo-acerto. Não veio o carro de som e também não vieram as fitas – então sobrou fita para todos; isso parece satisfatório, mas apenas para quem é medíocre e não percebe que como seres humanos e como cidadãos merecemos mais do que a condenação a insignificância. As comunidades que são as cidades estão permanentemente labutando entre a mediocridade e a plenitude. O problema é que, como muito bem assinala o filósofo Taunay Daniel, os medíocres se associam para impedir que algo aconteça de melhor, acostumados que estão com a subsistência burocrática (deveria dizer burrocrática).
Mas o fato é que foi um episódio bonito. Após Gleiton dar o início ao evento, tivemos uma roda de ginástica na praça, conduzida por Ivan Bonifácio que realiza um belo e voluntário trabalho aqui no posto com ginástica para idosos. Fizemos alongamento, depois palestrei sobre diabetes e então fizemos aferição da pressão sanguínea e da glicemia dos presentes. Depois saímos pelo Vale, fomos pelo Gorgulho até os Gatos, onde fizemos a primeira parada para aferição de glicemia. Ali aproveitei pra conversar sobre as palavras de Ditinha, uma senhora adorável que tem aqui. Ela é bem baixinha e redonda, brinco com ela dizendo que faz parte do time de basquete do Capão, ela é a bola. Ela me disse que percebe que antigamente as pessoas eram mais felizes. A irmã, Maria (dita ‘de Ditinha’), Dalva de Gilsinho, Luzia Dreger, Nice de Edílson, Lurdes do Batista e outras se juntaram para contar como era difícil a vida, mas como se divertiam conversando muito na cata do café, como riam umas com as outras e Maria se lembrou que enquanto colhiam cantavam a mais não poder. E deitaram prosa enquanto batíamos poeira na passeata.
Com alguma freqüência vemos o passado com o olho do sonho. É fácil que estas mulheres se lembrem mais dos momentos mais felizes e percam de vista a labuta dura, as perdas, as dores. No caso em questão Maria de Ditinha que também foi de Carlindo, que morreu no garimpo em uma loca e lá está até hoje, que o buraco não era fácil, pois bem, esta Maria já em outra oportunidade me segredou que não troca o hoje pelo ontem. Até porque, como ela mesma disse, antes não se podia falar nada, só tinha obediência e nada de opinião. Mas ela, sem ter visão romântica do passado, acha (e concordo) que os mais novos não são muito felizes. Conversamos um bocado e na primeira parada da passeata, na casa de D. Luzia dos Gatos, nos Gatos, o tema foi tratado, com a participação de mais alguns presentes. Comentei que na vida o Capão de antigamente era tanta dificuldade que qualquer pouco de coisa era uma festa. Uma oportunidade que fosse, ainda que pequena, era aproveitada. Até tirar café, tarefa árdua, virava uma festa. Hoje, temos televisão, transporte, variegados modelos de roupas, supermercados, comidas diferentes para todos os gostos padronizados no desejo do sal e do açúcar em excesso, enfim, está tudo fácil demais. E quanto mais se tem, mais se deseja. Contei que uma vez atendi um homem que apresentava diversos sintomas físicos desagradáveis, pois andava muito tenso com dinheiro. Perguntei-lhe quanto ganhava e era uma quantidade de dinheiro inacreditável. Perguntei-lhe como ganhando tanto poderia se preocupar com as finanças. Ele me respondeu que tendo muito gastava muitíssimo. Filhos estudando na Europa, viagens aos Estados Unidos, o iate e a lancha, as diversas casas etc. As vezes perdemos a capacidade de alegria quando nos deixamos pendurar pelas nossas posses.
Ao fim conclamei os presentes, alguns idosos outros apenas adultos, que conheceram os tempos difíceis do Vale para ajudarem os jovens a encontrar o valor das coisas; a reverem a benção que é estar vivo, e ainda mais em um lugar como este: O Planeta Terra.
Até a próxima (se não for antes).
E NÃO SE ESQUEÇA: SEXTA-FEIRA É DIA DE MEDICINA DO COTIDIANO AQUI NO BLOG.

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