domingo, 21 de agosto de 2016

MULHER É UM PROBLEMA

Nasci no Bairro do Uruguai, em Salvador, à época parte dos Alagados, que logo depois foi aterrado com o lixo produzido na cidade. Sou grato por ter estado ali boa parte de minha vida, lugar onde aprendi mais do que a ler e escrever. As brincadeiras infantis foram povoadas de notícias da vida dura de um bairro bem pobre com seu cheiro de mangue e chocolate (a fábrica de Chocolates Chadler derramava sua chaminé sobre o bairro).

Por isso aprendi também a ver um outro lado das coisas que os livros me ensinaram e vi que nem sempre o linguajar pulcro traduz a crueza rude do existir doce.

Talvez por isso também me sinto tão bem conversando com as pessoas ditas “do povo” e foi assim que um amigo se aproximou para papear (desabafar): “Mulher é um pobrema” e desandou a comentar os jeitos de sua amada esposa (amada sim, pois o amor, como alguém disse, é “apesar de” e não “porque isso ou aquilo”). Ri e perguntei-lhe se quando chegava em casa guardava cuidadosamente a roupa suja ou se deixava em qualquer lugar, e os arreios do cavalo, as botas... Claro que largava tudo à toa! Comentei que ele é um problema. Como a conversa se adiantava sob o signo do riso leve, a coisa seguiu em alegria e tranquilidade com comentários jocosos de parte a parte; lembrei de várias outras conversas que mantive em rodas com amigos. Reproduzo aqui como se fosse um único papo e como se fosse com aquele mesmo amigo do qual acabo de contar e incluo algumas reações dos interlocutores.

Disse: Pois sim, mulher é um problema, mas você está sempre atrás delas, parece que você é maluco e gosta de problema. Se mulher é problema, porque não vai viver com homem? Todo mundo ri com esse comentário – é uma graça!

Provoco: Eu, em particular, gosto muito de mulher, é muito legal encontrar seios fartos e não uma tábua, ou apalpando mais embaixo dar de sentir um vazio delicioso e morno, já quem apalpa um homem encontrará o cheio; não que eu desaprove a quem sendo homem goste de homem – risos pra todo lado, alguns um pouco nervosos – continuo: Isso é algo que merece todo o nosso respeito, pois o prazer é uma coisa que não depende de regra e se alguém tem prazer no semelhante, pra que o obrigaremos a manter o prazer no diferente contra o próprio senso? (cenhos franzidos, risos baixos, cabeças balançando para os lados, cabeças balançando acenando com um sim, dúvidas se manifestam em alguns semblantes...).

Sigo: Mas a verdade é que mulher é um problema... e uma solução; homem igual. Todo problema traz em si sua resposta certa. David Kahane nos ensina que quem não é parte do problema não será também parte da solução, e está coberto de razão.
Acrescento: Continue dizendo que o problema está nela e viverá atrás da fantasia da mulher perfeita decepcionando-se todo o sempre e sempre perseguindo fantasmas lá fora quando eles moram cá dentro. Pode ser até que encontre uma mulher que apenas silencie, curve a cabeça, não se queixe, então ou é depressiva ou dissimulada. E em ambos os casos vai rolar merda – sorrisos de aprovação, rostos preocupados, olhares postos no horizonte.

Vai daí que vale olhar para si e olhar para ela com o amor que nós temos. Dizer o que sentimos e não diagnosticar nela a doença que pode até estar nela, mas seguramente está em nós. E isso vale também para as mulheres que falam mal dos seus maridos (expressivos “sim” com a cabeça, rostos falando silenciosamente de decisões, bocas fechadas dizendo que nada disso pode ser aplicado, olhares decididos para um lado ou outro – cada um no seu processo).


Recebam um abraço gilânico de Aureo Augusto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

COMO ANDA A (minha) SAÚDE

Delícia o apoio que tenho recebido de tantas pessoas que se ocuparam de minha saúde nesses últimos dias. É maravilhoso se sentir pertencente a uma rede tão boa, constituída de gente, conselhos, luz, carinho... E mais uma vez mando as notícias de como as coisas estão acontecendo.

Em 2/8/16 fui submetido a uma uretrorenolitotripsia flexível a laser com duplo jota. O nome me encanta, o que não impediu de sentir medo e pelas medicações que me aplicaram durante o procedimento (estava anestesiado dormindo), essa covardia se manifestou sob a forma de agitação, vômitos e pressão alta. O medo é esperado, dada a minha natureza pouco corajosa, também se consideramos que não estou habituado a dormir em um lugar estranho com pessoas me futucando por dentro – ainda que com boas intenções.
O Dr. José do Egypto fez muito bem o seu trabalho, e meu rim esquerdo logo se viu liberado para trabalhar fluidamente. No entanto, após 3 horas não foi possível romper toda a pedra. Coisa séria! Era um enorme paralelepípedo que apresentava no lado de uma de suas extremidades uma grande protuberância. Pelo menos ficou reduzido a algo em torno de 1cm de diâmetro (sem contar a outra de ½ cm). 

O médico sugeriu que eu fizesse complementarmente uma litotripsia externa. Aí sim que é de lascar. Fui atendido por um médico muito agradável e simpático, Dr. Bastos, filho de um médico de Seabra, Dr. Bastos, a quem conheço desde longa data. Fui a uma sala simples com um aparelho globoso que encostou em meu dorso e durante 20 minutos o pau comeu! Era como se eu fosse um lutador de boxe subnutrido, apanhando no rim em uma luta na qual só desejava o fim do round. Ainda bem que Zezé Camarão (minha namorada) estava comigo, segurando minha mão (a esta altura suada) e com seu humor compreensivo conseguiu arrancar de mim sonoras gargalhadas – interrompidas de vez em quando por um murro ou outro mais forte – com assuntos escolhidos a dedo para permitir que a pancadaria não repercutisse tanto em meu humor.
Uma ultrassonografia dias depois mostrou que a surra não resultou em sucesso, assim vou cair de novo na porrada. Tomara eu esteja melhor preparado, pois na primeira luta não tive o pudor de pedir arrego (não adiantou).

Claro que alguém perguntará o porquê de todo esse sofrimento. Pergunto-me também. Tenho meditado muito e cheguei a interessantes conclusões – tantas que não caberiam aqui nesse pequeno informativo – e dentre elas notei que a vida é para ser vivida. Esse é o seu principal sentido. Obvio, né? Mas nem sempre o obvio é atualizado aqui nesse presente que é estar na Terra.
Sim, nunca senti tão dentro de mim como carecemos dessa vital necessidade de (redundantemente) viver e nada mais. Nada mais? Sim e não, como sempre. Estamos aqui para experimentar a experiência de estar aqui, experimentar em cada uma das coisas que rolam, estar presente na dor, no amor, numa boa trepada, na decepção profunda, na alegria...

Aquela frase que se diz nos casamentos sobre ser fiel e estar com o outro na alegria e na tristeza etc. Sim, fidelidade ao fato de ser, de existir. Não é fácil. Inclusive porque essa fidelidade implica necessariamente no reconhecimento de que não somos isolados e sim fruto das relações com o entorno, vai daí que que não cabe um reles egoísmo. Somos na medida em que somos produtos de interações que vão desde o que nossos pais fizeram um dia na cama, até o que o mundo nos reserva em suas curvas... Pensei essas coisas e sigo pensando (surpreendi-me ao ver escrito “o sentido da vida é viver” em uma página da última revista Planeta – numa interessante coincidência).

Quero que saibam que saber que não somos essenciais e sim parte das relações universais é algo bastante nutridor e que vocês todos me sinalizam isso quando me olham amorosa e compreensivamente nesse momento onde às vezes o desconforto diz da minha humanidade.

Recebam um abraço grato de Aureo Augusto

segunda-feira, 25 de julho de 2016

GOSTO DE ABRIR JANELAS

GOSTO DE ABRIR JANELAS

Gosto de abrir janelas!

Hoje amanheceu frio de doer as canelas.
Aí abri a janela do atelier. Nossa! A luz invadiu profusamente a casa, tomando todos os cantos, desenhando o contorno dos livros, tomando meus olhos de assalto. Respirei fundo enquanto me deliciava, pois, a Serra da Larguinha, no Leste, estava envolta na névoa, bonita em seu lençol branco e o orvalho gélido pingava leve do telhado e da ponta das folhas quietas.

O ar frio entrou com a luz e senti uma coisa boa tomando conta de meus pulmões acostumados ao rumor obscuro da casa silente.

Deixei-me um pouco na janela acostumando os olhos à beleza... aí corri para o comedor e abri sua janela – outro ângulo do mundo, mais a rés do chão – e o limoeiro ali estava com suas folhas brilhando nugget (aquela pasta de sapato), úmido, frio e, diria, sorridente. O mato se espreguiçava aos primeiros raios da luz de um sol perdido na névoa, lá em cima, no andar de cima de casa.

Gosto de abrir janelas!
Inclusive quando converso com os estudantes que vêm fazer estágio aqui no posto, ou com meus filhos, amigos e amigas jovens (de corpo ou alma), ou quando penso nos acontecimentos que o mundo e o tempo me brindam, percebo aqui em meu corpo janelas me apresentando a luz da manhã, nem sempre é indolor, mas sempre gosto de que janelas se abram!

Recebam o meu prazer janelístico.


sábado, 16 de julho de 2016

ESTÁGIOS NA UNIDADE DE SAÚDE DO VALE DO CAPÃO

Nesse momento contamos com três estagiários da Faculdade Medicina da Universidade Federal da Bahia e mais uma aluna de medicina da Faculté de Médicine de Purpan da Université Paul-Sabatier (Toulouse-França).
Desde há 2 anos e meio, temos recebido regularmente estudantes da UFBA, mas logo depois do primeiro grupo de estagiários (1 a 4 de cada vez) começaram a surgir solicitações de outros estados do Brasil, principalmente de Pernambuco (Recife e Petrolina), mas também de Sergipe, Rio Grande do Sul e Paraíba. Alguns desses estagiários são estudantes, outros são médicos fazendo mestrado em Saúde da Família.

Os estágios são um mergulho na vida da unidade e mesmo uma inserção vivencial no dia-a-dia de uma comunidade bem interessante como é o povoado do Vale do Capão, local em que está situada a sede da USF de Caeté-Açu. Trata-se de uma comunidade rural, no passado dedicada ao garimpo de diamante e à produção de café e banana para comercialização. Também havia pêssego, marmelo, nêspera (que o povo chama de ameixa), jaca, manga, aipim, abacate etc. vendidos em Palmeiras (sede do município) ou em Lençóis (cidade próxima). Porém recentemente suas belezas naturais atraíram a atenção de pessoas de todo o mundo o que implicou em um ressurgimento econômico, já que, com a queda da produção diamantífera e a erradicação dos cafezais (promovida pelo governo federal no século passado), a economia decaiu substancialmente. Hoje os nativos que emigraram estão voltando e muitas pessoas de diversas nacionalidades imigram para viver aqui, resultando em uma sociedade peculiar, rica e diversificada, que é um desafio e uma alegria para a equipe da USF.

Os estagiários experimentam as seguintes atividades:
·         Reuniões de equipe que acontecem todas as sextas a partir das 8 horas, quando planejamos as atividades, são dadas as notícias e comunicações, as agentes comunitárias de saúde relatam as necessidades específicas de suas áreas para que haja o planejamento de ações focadas, definição das atividades a serem realizadas e planejamento das mesmas com distribuição de tarefas (das quais os estagiários participam), entre outras.
·         Participação em todas as atividades do posto, tais como, pré-consultas, recepção, atividades burocráticas, em sistema de rodízio.
·         Participação em consultas médicas ambulatoriais, bem como nas visitas domiciliares efetuadas pelo médico.
·         Participação em consultas de enfermagem, bem como nas visitas domiciliares realizadas pela enfermeira.
·         Acompanhamento das agentes comunitárias de saúde nas visitas domiciliares.
·         Atividades educativas na modalidade Sala de Espera ou nas escolas pública e comunitárias locais.
·         Participação nos grupos realizados no posto (Grupo de Ginástica para Idosas com Roda de Conversa, Grupo de Pessoas em sofrimento psíquico, grupo Se Liga no Peso...)
·         Participação em atividades pontuais, quando as mesmas acontecem no período do estágio, tais como Dia do Homem (com palestras, teatro, campeonato de sinuca e dominó etc.), Dia do Mulher, entre outras.
·         Podem ser convidados a falar no programa da USF na rádio comunitária local.
·         Curso de Introdução às Práticas Integrativas e Complementares, com ênfase no neohipocratismo (naturopatia), proferido pelo médico do posto.

Caso você tenha interesse em participar, consulte seus professores e contate com Natália Souza, enfermeira e coordenadora do posto, natalia.a.souza@hotmail.com ou no telefone (75)33441030 (e fale com Wanessa Kelen, técnica administrativa. Até o presente temos recebido estagiários de técnicos em enfermagem e medicina, mas nos agradaria partilhar também com outras áreas.


Estamos lhe aguardando felizes para partilhar experiências e conhecimento.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

MINHA SAÚDE RELATO

Meus vizinhos têm demonstrado que estão preocupados com minha saúde e sou grato pelas manifestações que recebo.
Além disso, em toda a minha vida tenho sido objeto de boatos quanto a minha saúde e vida, como por exemplo aquela vez em que saindo de um supermercado aqui no Vale do Capão encontrei uma amiga querida de Salvador que mostrou grande surpresa, pois ela tinha ouvido que eu estava internado às portas da morte. Também já inventaram outras histórias tão ou mais escabrosas quando na realidade tenho no geral uma boa saúde, ficando gripado de vez em quando naqueles períodos em que, pelo trabalho, perco muita noite. Daí quero explicar o que está acontecendo comigo como forma de reduzir a possibilidade de imaginação descabida.

Há cerca de 20 dias começou um processo de estafa por excesso de trabalho e preocupações, agravado pela morte de minha mãe (coisa que me tocou bastante bem como a um círculo bastante amplo de pessoas, parentas ou não). Nisso apresentei sintomas claros de infecção urinária, confirmada por exames laboratoriais; fiquei estranhando pois nunca tive esse tipo de coisa e a pulga atrás da orelha ficou grande o suficiente para que eu fosse fazer ultrassonografia e consulta ao urologista.

O que descobrimos: Há 40 anos eliminei dolorosamente pela urina 5 cálculos que haviam previamente sido diagnosticados por Raio X com contraste (que era o método à época). Pensei que estava livre, porém ficaram dois que quietamente cresceram em todos esses anos, sem absolutamente nenhum sintoma. Um deles está bloqueando o livre fluxo da urina no rim esquerdo (daí a infeção que aconteceu porque trabalhando na zona rural de um município vizinho fiquei sem beber suficiente água) e em breve irá provocar a falência desse rim. Vai daí que terei que fazer um procedimento para quebrar a pedra e em seguida elimina-la com a urina.

Tive que ir a Salvador para os exames e consultas e consequentemente fiquei descansando do trabalho o que me foi bem útil; agora retorno ao serviço agradecendo a compreensão da secretaria de saúde de Palmeiras e o cuidado de meus vizinhos e demais amigos.


Recebam um abração de Aureo Augusto

sábado, 25 de junho de 2016

PAPO DE RUBINHO

Foi Rubinho quem me disse...
(Ele é moto-taxista e conserta motocicletas)
Falou que as vezes as coisas se juntam
Todas elas e derrubam a gente
Parece um conluio e somos apanhados
Como assim do nada uma rede!

E ria, e ríamos, pois é assim mesmo
Tanto aquelas que se juntam para a alegria
Como eu e Rubinho cortando a manhã
No rumo do trabalho, mas também às vezes
Não muito frequente ainda bem
Aquelas que nos fazem penar, sentir, sofrer
E como a alegria, de outro jeito, crescer!

Quando a noite cai na metáfora que é a vida
E ficamos sós porque sempre estamos sós
Ainda que com um doce olhar sobre nós
Vemos o fato de que viver é uma coisa coletiva
Sem deixar de ser subjetivamente erma
Um lugar onde os vizinhos desabitaram o mundo.

Esse é um jogo feito de vazio e repleto
Porque existo apenas enquanto parte
Sendo também essa parte, só.
Mas bem disse o meu amigo
Quando das coisas que se juntam e fazem
Orvalhando o existir como nas manhãs frias.

No meio de um momento como em uma encruzilhada
No meio do mundo como no princípio que é o fim
No meio da vida como na derrocada do azar
No meio de um novo começo aonde de novo
Não sei quem sou e isso me soa como um dejá vu.

O sorriso que nasce apenas pra me lembrar
Que estou na vida como colando uma fita:
O tempo reto como o aro de uma roda...
A lágrima informa que sempre há algo indo embora
Da mesma forma que os dedos acenam
Para os momentos recém-chegados...
Não sei bem como será

Mas isso não é diferente do jeito que sempre foi...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

COQUI

Quando cheguei aqui no Capão, há mais de 30 anos, havia dois pássaros que se destacavam pela sua presença: coqui e anum. Hoje são raros. Conversando com Dinha há pouco ela me alertou que estes pássaros são amigos das culturas agrícolas. O Coqui sempre estava presente aonde a enxada tinha limpado o terreno. E gostava muito de comer o arroz nas bagas, por isso de manhã cedo e no entardecer o povo tinha que estar espantando o bichinho para não abater a produção. Eu mesmo, naquele tempo plantei arroz de sequeiro e fiquei feliz com a safra, mas tive que espantar a turma alada. Para mim o coqui e o anum são uma espécie de corvos de nossa área, não apenas pela plumagem preta, mas também pela capacidade de reproduzir palavras e o olhar penetrante e misterioso.

Dinha tinha um coqui. Ele era bem autoritário. Quando alguém passava na frente da casa dele (Dinha pensava que a casa era dela) bicava a cabeça da pessoa que era obrigada a estugar o passo. Para a vizinhança aquilo era brincadeira, mas os turistas se assustavam. Quando eu estava fazendo algo na enxada ele parece que adivinhava... chegava e observava aboletado em um galho baixo. Então pulava no meu serviço pra comer e eu tinha que interromper o trabalho. Tinha a sensação, quando ele me olhava desconfiado, que estava com medo de eu ir comer sua comida.
Um dia desapareceu. Dinha acha que um turista o levou pra si. Pena. Era gente boa!

Mas o fato é que alguns pássaros desapareceram na medida em que a agricultura minguou. Anum, coqui, capitinga (chupa-capim), até o tico-tico tem menos. Aumentou a Aranquã que antes era mais arisca, e o periquito que ainda assalta o os poucos cafezais que restam.

Sinal da passagem do tempo por um Vale do Capão que, embora tão guardado entre as serras, vê sua história mudada como nunca antes. Os jovens não se interessam mais pela labuta na terra; preferem ser pedreiros ou mesmo trabalhar com computadores... ainda temos alguns com o prazer de amanhar a terra, mas não sabemos por quanto tempo.
Não lamento.

Há quem diga que o Capão era melhor antes – quem diz isso não viveu aqui antes. Melhor ou pior, quem sabe? Sei que devemos estar prontos para nos adaptar às mudanças, porque elas estão aí. Quem sabe as mudanças serão tantas que até mesmo o coqui de Dinha volte para casa.

Recebam um abraço coqui de Aureo Augusto.


segunda-feira, 13 de junho de 2016

ALIMENTOS ORGÂNICOS INDUSTRIAIS

Primeiro pegam milho e deixam de molho por 36 horas em água com anidrido sulfuroso, para que os grãos inchem e o amido se separe do resto. O germe será esmagado para produzir óleo, a casca será usada para produzir vitaminas e aditivos, e o amido irá sofrer diversos processos até se transformar em maisena, um pó branco do mais puro amido. Este pó sofrerá mais algumas ações de enzimas artificiais e outros processamentos para se converter, por exemplo em glicose de milho (que quando eu era pequeno minha mãe me dava pensando que era a melhor coisa do mundo – Karo, não sei se ainda existe) ou em frutose de milho, que é mais doce ainda. E ambos têm um índice glicêmico inacreditável; talvez sejam os maiores responsáveis pela atual epidemia de diabetes tipo II no mundo.

Você vai me dizer que não come essas coisas, mas encontramos esses produtos em 9 de 10 produtos industrializados, tais como carnes processadas, enlatados, refrigerantes (basicamente são feitos disso) etc. Leia os rótulos e encontrará nomes como ácido cítrico e lático, maltodextrina, ciclodextrinas, frutose, goma xantana, amidos modificados etc. Quem nos conta isso é Michael Pollan no livro “O Dilema do Onívoro” que todos deveríamos ler.

O que me preocupa e quero partilhar com vocês, é que recentemente estamos sendo apresentados a muitos produtos ditos orgânicos, ou, naturais, apenas porque são feitos com milho e outras plantas, mas não nos contam em seus rótulos que aquela maltodextrina de milho, não saiu do milho pura e simplesmente, como uma farinha integral, foi fruto de muitos processos industriais obscuros dos quais não sabemos nada. O pão branco que é encontrado na padaria, se for feito apenas com farinha de trigo branca, fermento e água poderá ser mais natural do que certos produtos naturais que são vendidos como a maravilha do mundo (não estou defendendo o uso de pão branco, por favor).
Muitos produtos são elaborados a partir de plantas (especialmente o milho e a soja) associadas a derivados do petróleo, mas o fato de conter partes elaboradas do milho ou da soja podem ser tratados como algo de tal excelência que garante um preço maior do que mereceriam.

A razão deste texto é alertar àqueles que têm cuidado com o que comem, para não se deixarem levar pela rotulagem “orgânica”, ou “natural”. É importante que leiam as letrinhas miúdas, que na medida do possível se informem sobre como são produzidas aquelas coisas das letrinhas miúdas e tomar uma decisão a partir do conhecimento e não apenas da crença nos fabricantes. Infelizmente em uma sociedade como a nossa, seja ela de orientação capitalista ou comunista (ainda há?), o desejo de lucro ou de poder (ou dos dois), tão frequente à esquerda e à direita do espectro político (aliás, no centro também), a saúde dos consumidores não é o foco maior da produção.
Abramos nossos olhos.


Recebam um abraço desconfiado de Aureo Augusto.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

PARA QUEM O ENTÊRRO

Hoje, após o sepultamento de minha mãe – muito emocionante dada a capacidade que ela tinha de mobilizar afetos em quem a conhecesse – uma de minhas filhas comentava comigo o quanto havia sido agradável ouvir das pessoas, seja em conversas privadas, seja em declarações lançadas aos ouvidos de todos, durante o velório, casos, notícias, agradecimentos àquela de quem nos despedíamos.

Para mim também foi maravilhoso e emocionante escutar tanta coisa linda, sabendo eu que não se tratava de palavras anunciadas como num bazar de politicagem e sim enviadas do imo de quem as pronunciava. A marca da singularidade de minha mãe ali estava pautada. Uma mulher cujos defeitos eram o pobre, parco, fraco marco que contribuíam para o luzir de sua bondade, bom humor, simplicidade entre tantas outras maravilhas humanas presentes em sua maneira de habitar o mundo.
E olhando toda aquela gente, parentes, amigos, uns que nunca vi, mas que manifestavam sua intimidade com ela por exemplos indicativos, outros cuja presença era constante em sua casa, me dei conta de que a cerimônia do enterro, não é para os mortos e sim para os vivos.

Claro que me refiro aos enterros onde as pessoas vão porque se sentem motivados a tanto e não porque são obrigados para atender a demandas da política, ou da sociedade, mas que não atendem ao coração. Percebo que, embora tratando-se de uma regra assentada em consuetudinária instituição, congrega aos amantes e amados de uma dada pessoa. Todos aqueles que dela auferiram algum tipo de graça (sorrisos, bondades, conselhos, exemplos...) e que agora vêm-se vazios da sua fonte.
Vazios daquela fonte reafirmam ali a glória que é fazer parte de uma família – não apenas aquela dos laços de consanguinidade, mas também a família constituída pelo amor/amizade ao outro – e que nessa família são bem-vindos.

Naquele momento os órfãos se abraçam auferindo uns dos outros, força, afeto, suporte psicológico, para seguirem em suas vidas, faltas da pessoa ausente, mas lembradas da herança presente agora vivida com ares de eternidade.

Frente à onipresença da Morte, a indelével certeza de que virá (ou aqui já está), nos reunimos e testemunhamos entre nós a perpetuidade da vida, não aquela pessoal, habitáculo da personalidade, mas a que se estende no tempo alimentada por gerações perecíveis. Ensinamo-nos que a experiência da vida será transferida exemplarmente apesar da temporalidade da existência.


Em 27/5/16 um abraço saudoso.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

PRESENÇA E SILÊNCIO

Um estrangeiro que aqui chegou me disse que o que mais o encantou no Vale do Capão foram os ventos. Aqui é o país dos ventos me disse ele. Quanto a mim, gosto de sentir o vento em meu rosto e, quando o manto escuro sob as estrelas me envolve, aguardo sob a jaqueira no fundo do quintal a brisa que o Mistério me manda, naquelas noites em que sou convidado a saborear o silêncio, apreciando também o sussurro das folhas.

Gosto dos ventos, gosto de senti-los dançando ao meu redor quando caminho pelos Gerais. Gosto quando emprestam às árvores seus sons...

Hoje porém, quando fui tomar meu banho matinal no rio que serpenteia por esse mundo entre as montanhas, notei o silêncio absoluto que emanava das árvores e me senti levado ao não pensar. Enquanto ali estive junto ao rio e depois caminhando devagar os pouco mais de 200 metros que me levaram a minha casa, era como se me observassem os elementos vegetais.

Não havia nada, apenas a vertical presença sob o céu e as serras. Meu silêncio fazia-me sentir uma presença difusa e vigilante que saía desse todo que sou eu e o lugar que habito.


Em 18/5/16 recebam meu abraço silencioso