sábado, 3 de dezembro de 2016

CUIDADO DOS MORTOS

Muitas pessoas do meu conhecimento ficaram chocadas com a insensibilidade do Congresso Nacional frente ao acidente aeronáutico que levou à morte de esportistas do Chapecoense. A Colômbia fez uma bela cerimônia por conta do luto e até o serviço diplomático de outros países enviou pêsames ao governo brasileiro, o qual manteve-se praticamente como se nada acontecesse.

No entanto, se bem notamos, o Congresso e o Executivo nacionais demonstram bem pouca preocupação pelo povo, ou pelos acontecimentos que afligem à nação. Não há apreço pelo ser humano que vive na lide diária buscando o “pão nosso de cada dia”. O povo é lembrado em época de eleição ou faz-se um teatro de baixa qualidade no cotidiano político, onde os atores (deputados, senadores, presidentes...) executam uma pantomima tentando convencer às pessoas da veracidade de suas preocupações, induzindo-nos a crer que estas preocupações dizem respeito à pátria ou ao povo que mantém a pátria. Na realidade a preocupação resume-se a manter-se no cargo e ampliar as benesses que este pode trazer.
Parodiando Oscar Wilde in “O Retrato de Dorian Gray”, eu diria que a classe política, de regra, é como se fosse os produtos de uma loja de quinquilharias com todos os preços acima da tabela – ou do seu real valor. Sérios presidentes da república se sucedem, vetustos presidentes da câmara e do senado, nobres deputados e senadores, vereança – um bando de mendigos morais pavoneando-se qual cardeais da alta cúpula de uma opulenta igreja.

E a nós? Cabe-nos o silêncio mormacento dos dias de labuta tentando construir uma vida decente sob tributação indecente que mantém quadrilhas que se alternam no poder.
Não estranhemos a displicência para com parentes e amigos dos mortos, afinal, em alguma medida todos nós, gente comum, não passamos de mortos para a sanha dos abutres que se locupletam da nossa impotência.
Porém, não creio que os mortos serão sempre mortos. Em que pese o formol que conserva o cadáver político em nosso país, como no livro Incidente em Antares de Érico Veríssimo, os mortos sairão a caminhar.

Caminhamos, enquanto o tempo passa, nós, as pessoas comuns aprendemos. Aos poucos vamos olhando com olhar crítico o que nos diz a imprensa, os discursos dos políticos e seus atos, a lógica de uma economia centrada no lucro e nos que auferem os lucros.... Devagar, evolutivamente, aprenderemos a dizer não.

Os abutres políticos desdenham do tempo porque creem que vivem da morte (o silêncio das consciências), desprezam os ciclos da vida porque alimentam-se daquilo que aparentemente não muda (a desmemoria de nossa gente), desconhecem a evolução porque apoiam-se na estabilidade da ignorância que eles fomentam em segredo (a educação que produz disfuncionais).

E apesar de suas verdades elaboradas na mentira, os políticos verão o mudar dos tempos. E verão que eles são os cadáveres de sua própria imoralidade.
Sei que nem todos são bandidos, mas a maioria é, e, mesmo assim, com essa maioria, não conseguem conter a mudança que se frágua em segredo e a maioria um dia será minoria. Aguardemos.


Recebam um abraço revoltado de Aureo Augusto

terça-feira, 15 de novembro de 2016

PITANGAS


Escrevi este texto no dia 18/9/16, mas antes de publicar fui alertado da morte (e das piadas sem consideração pelo sofrimento das famílias) de um ator da Globo quando se banhava no São Francisco na companhia de Camila Pitanga. Então não quis publicar naquele momento e o faço agora:
No quintal as pitangueiras estão carregadas exibindo tons de verde, amarelo, alaranjado, vermelho e roxo deliciosos com os quais acabo de me empanturrar. As pitangueiras carregadas me remetem ao tempo em que minha filha caçula era pequena. Um dia pilhei-a no terreno de um vizinho dependurada em um galho ridiculamente fino no afã e alcançar mais uma das frutinhas vermelhas. Depenou a pequena planta. E satisfeita foi pra casa – ela não me viu. Aliás, essa minha filha era terrível. Quando saía da escola, no caminho de casa eram muitos os desvios para visitar as diversas frutíferas, que sabia de todas, e das temporadas de cada fruta. Comia a mais não poder e quando chegava em casa dizia que estava sem fome – não sabia porque, dizia com a cara mais inocente do mundo – e não adiantava eu dizer que deixasse pra comer as frutas em outro momento.
Ainda bem que nesta tarde ela não estava em casa, pois mesmo agora, já crescida, continua amante das belas e deliciosas pitangas. Comi sem concorrência.

Sou instado a dizer dela que é uma planta humilde, e é. Tranquila e silenciosa, produz suas pequenas frutas quase que desapercebidamente e sua beleza e o discreto perfume de suas folhas passam em branco para muita gente. No entanto é uma das nossas mais maravilhosas plantas.
Quando ouvimos falar em licopene, antioxidante cuja presença reduz a possibilidade de câncer de próstata, pensamos logo em tomates, mas você sabia que a pitanga tem mais licopene que o tomate? E tem também nas folhas, daí o chá delas ser útil também para isso.

A planta, ou a infusão das folhas ajuda no tratamento de hipertensão, problemas do estômago, obesidade, reumatismo, bronquite – é anti-inflamatória, antioxidante, diurética e calmante, já pensou?
Devemos usar 1 colher de sopa da folha seca ou 2 colheres de sopa da folha verde para uma xícara de água fervendo que deve ser derramada sobre as folhas e deixar no infuso por 10 minutos. O correto é tomar 3 vezes ao dia, ou seja, de 8 em 8 horas.

Também é bactericida (contra Staphylococcus aureus e Escherichia coli, porém moderadamente, podendo, portanto, ser coadjuvante no tratamento daqueles que estão em uso de antibióticos) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em parceria com a Embrapa e a Universidade da Carolina do Sul estão estudando o extrato do fruto para tratamento de câncer, principalmente de cólon (intestino grosso).


Lembro de quando era menino, havia o dia de algum santo ou santa na igreja católica e os ônibus e as carroças eram enfeitados com galhos de pitangueira. Era uma coisa bonita de se ver. Naquela época eu não sabia que aquelas folhas cheirosas e seus frutos saborosos são uma dádiva para a humanidade.

Recebam um abraço pitanguico de Aureo Augusto

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O PROFESSOR DESNUDO

Tenho tido alguma experiência com ensinar e graças a um projeto de educação pública que se espalhou por várias cidades da Chapada Diamantina e mais além (do qual participei, não como educador, e sim principalmente como mobilizador) contatei uma infinidade de professores e estudantes, convivi com eles e também com coordenadores pedagógicos e seus formadores, o que me foi bastante educativo tendo influenciado sobremaneira a forma como atuo em medicina.

Recentemente, além dos cursos que profiro periodicamente estou atuando como preceptor de estudantes de medicina, odontologia, enfermagem e mesmo mestrandos em saúde da família, que estagiam na Unidade de Saúde da Família de Caeté-Açu, no Vale do Capão, zona rural de Palmeiras-BA, unidade de saúde da qual sou parte da equipe. Aqui, os estagiários vivenciam uma equipe e uma comunidade, proporcionando experiências únicas, para a equipe e para os estudantes.

Estas experiências me colocam em uma peculiar posição de permanente reavaliação do meu próprio trabalho.
Questiono-me.
Ensinar, percebo, é algo íntimo. Pessoal. E ambas as coisas, ensinar e aprender, são completamente imbricadas.

Sinto-me tremendamente permeável ao escrutínio desses jovens e essa permeabilidade, noto, é o que me permite aprender deles, talvez mais até do que eles aprendem de mim. Eles, por sua vez, tanto mais colocam-se permeáveis tanto mais captam um algo além das palavras, das notícias de tratamentos e seus resultados. Pondo-se aquém da distância, somos juntos, justos aprendizes, completos em nossas metades.

Pergunto a mim mesmo como é possível ensinar sem me expor. Como é possível que um professor não mostre a própria alma quando diz do si que é seu conhecimento e experiência, como é possível ensinar se o professor não se põe como alguém que está exposto, aberto qual livro, um dos livros prescritos.

Sento-me diante desses jovens que me guiam pelos meandros da internet na busca dos protocolos estabelecidos e dos mais recentes trabalhos dizendo o que é isso ou aquilo dos sintomas e sinais que nos regala a gente que nos diz de si e de suas dores. Esses jovens às portas de se formar (em sua maioria) com seus olhos brilhantes e corações apertados, tanto quanto eu, com tanto a aprender e tanta responsabilidade a assumir.

Sinto-me nu. Eles me olham como o livro que sou e querem algo que nem sempre dou, não porque não queira oferecer, mas porque nem sempre alcanço o tamanho do que eles desejam. Mas também no ato de me oferecer pleno e nu, expondo as páginas de minha vida e os tesouros do que aprendi, respostas brotam como desafios.

E esta via tem duas mãos e é assim que a nudez nem sempre tão explícita deles, expostos com esta exposição (nem sempre consciente) dos jovens (de todas as idades) me alcança trazendo respostas até para perguntas que eu mesmo não fiz, respostas que brotam como desafios.

Recebam um abraço estudantil de Aureo Augusto

 

sábado, 22 de outubro de 2016

A USF DE CAETÉ-AÇU PEDE SOCORRO

Recebemos comunicado da prefeitura de Palmeiras que em razão da necessidade de ajustar as contas foram tomadas decisões que implicaram na demissão de dois funcionários essenciais ao funcionamento da unidade de saúde, quais sejam, a técnica em saúde bucal e a técnica administrativa e, ademais, o material do dentista não mais será enviado ao posto, entre outras coisas.

Em reunião a equipe considerou que o atendimento não pode continuar sem estas duas funcionárias e sem o material, mas, por outro lado, queremos seguir prestando o serviço que é a missão de nossa equipe: cuidar, dentro das nossas possibilidades, da comunidade.

Então decidimos lançar um pedido público para que possamos funcionar até dezembro. Pedimos às pessoas que conhecem o trabalho dessa unidade que depositem o que puderem na conta abaixo e assim contribuam para que possamos seguir com o nosso trabalho.
Calculamos que vamos necessitar de R$2400,00 por mês (4800 no total), e isso inclui o recurso necessário para as funcionárias e o material do dentista.

Entendemos que cabe ao poder público organizar os recursos que aufere para manter o funcionamento normal dos serviços de saúde, e não queremos substituir a gestão municipal, porém entendemos também que se trata de manter provisoriamente o serviço funcionando. Não pretendemos que isso se estenda por mais que esses dois meses.

A Associação de Pais Educadores e Agricultores de Caeté-Açu disponibilizou sua conta para receber as doações de qualquer valor:
Banco BRADESCO
Número da agência: 1087
Número da conta: 3590-4
ATENÇÃO: PARA DISTINGUIR AS DOAÇÕES PEDIMOS QUE OS DEPÓSITOS SEJAM IDENTIFICADOS, assim o pessoal da associação vai saber que é destinado a nós.

Somos gratos a todos aqueles que queiram contribuir com o nosso serviço, lembrando que isso é pelo bem de nossa comunidade. Prestaremos conta do uso do dinheiro aqui mesmo no fb.

Aureo Augusto p/equipe da USF de CAETÉ-AÇU


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CONHECENDO DE DENTRO

Antigamente aqui no Capão eram poucas as gestantes que faziam pré-natal. Quando encontrava alguma mulher pejada lhe pedia que fosse à consulta, mas a maioria não dava a importância que hoje elas mesmas dão ao acompanhamento da gestação. Quando do advento dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) esta situação mudou imediatamente. Aqui no Vale, as agentes, mesmo antes de termos um posto da Estratégia de Saúde da Família, partilhavam comigo e eu com elas, os cuidados com a população. Eu atendia com Marilza Néry (técnica de enfermagem) no ambulatório gratuito que Lothlorien – Centro de Cura e Crescimento – mantinha na comunidade e as ACS ali me encontravam para partilhar seus achados.

As mulheres avisadas da necessidade do acompanhamento pelas ACS passaram a comparecer em peso e hoje, com a Unidade de Saúde da Família de Caeté-Açu, temos praticamente 100% das gestantes sendo acompanhadas, ficando os furos por conta da população flutuante que é bem grande.
Voltando a antigamente, cada mulher que me chamava para acompanhar o parto era uma incógnita, o que não era confortável. Vínculo havia, pois que a população daqui me recebeu com alegria e hospitalidade e logo fui considerado como gente local de modo que conhecia todo mundo e era também conhecido e até íntimo de todos, mas como não havia acompanhado faltava a compreensão, ou seja, a preensão dos detalhes da personalidade daquela pessoa que eu ia acompanhar, o que causava às vezes alguma apreensão. Por sorte as comadres me alertavam quanto a determinados aspectos de modo que isso me guiava em muito. Hoje isso mudou, com poucas exceções sabemos a cada um o seu jeito.

No início era eu só, depois descobri Marilza e isso foi uma riqueza, agora faço parte de uma equipe, o que é a glória! Agora as ACS me dizem dos sofrimentos e alegrias da gente daqui, a enfermeira me indica caminhos para o cuidado, a equipe de saúde bucal partilha suas descobertas e dificuldades, e, como se não bastasse, a técnica administrativa e a auxiliar de serviços gerais me fazem sentir mais ainda dentro das casas das pessoas. O que ocorre é que a maior parte da equipe é nascida e criada aqui – grande trunfo da Estratégia – e, portanto, conhecem de dentro as lendas e as atualidades de cada família.

Como sorte pouca é bobagem, ainda conto com duas enfermeiras obstetras morando no Vale (Natália, minha chefa imediata, pois é coordenadora do posto e Mariane, que já atuou como voluntária e substitui a chefe quando esta se ausenta), e que fazem parte do grupo PARIR que lida com parto domiciliar planejado, como são todos os atuais partos domiciliares daqui.

Os tempos mudaram, e para melhor, assim eu vejo. Está bem que perdemos uma certa inocência (que nem sei se era inocente mesmo, ou se era sofrimento e pobreza), está bem que o mundo “lá de fora” (como se fosse possível “lá fora”) se imiscui intenso mudando coisas que melhor seria não mudassem, mas trazendo também mudanças que melhor são que certos costumes arraigados e moribundos do passado...

Bom, amanhã, segunda-feira, vou ao posto trabalhar. Desafios a cada atendimento – ainda bem que conto com tanta gente ao meu redor! Ganhei isso como um prêmio no correr dos anos, essa chance de ver por dentro à comunidade. Grato gasto essa riqueza que não desgasta com o uso, recria-se melhor a cada dia.

Em 18 de setembro de 2016, receba um abraço USF de Aureo Augusto.


sábado, 27 de agosto de 2016

ABAIXO A BURGUESIA

Quando ia para as passeatas nos idos dos sessenta do século XX, esse era um dos motes que mobilizavam os estudantes: Abaixo a Burguesia! Eu ia, morrendo de medo da polícia, procurando o mais possível não ficar muito exposto, o que não foi difícil já que, mirrado como era, passava despercebido. Na época eu não sabia bem o que falava, mas lia Marx tentando saber – e não adiantou muito.

Na época eu não percebia que burguesia é evolução. Tomemos o século XVIII por exemplo. Dois países: França e Holanda (Países Baixos). A França era invejada como centro de civilização. Seus nobres empoados desfilavam em carruagens douradas, usando trajes caríssimos, comportando-se conforme regras esotericamente elaboradas, os homens inclinando-se reverentemente diante das mulheres sacudindo as mãos ou lenços de forma cuidadosa, com um sentido de honra aristocrática. Tudo muito bom, muito bonito, mas não passavam de parasitas intolerantes que viviam às custas dos agricultores e dos burgueses que trabalhavam diuturnamente e sustentavam o bando de parasitas “bem-nascidos”.
A Holanda havia emergido de cruentas guerras de independência contra a Espanha. Seu povo, constituído de agricultores e comerciantes burgueses, era industrioso, prezava a limpeza, a tolerância e não se aplicavam demasiadamente em amostrar-se em público. Os Holandeses mostraram-se bem próximos do que hoje entendemos como democracia. No seu país não havia tantos pobres, párias, miseráveis quanto na rica França. A renda per capita da Holanda era bem maior, pois a riqueza era bem melhor distribuída, já que a burguesia amava a competência, enquanto a aristocracia (como na França) reconhecia o direito de sangue, a origem nobre.

A aristocracia é um sistema onde uma pessoa tem prerrogativas sobre as demais apenas pelo fato de ter uma ascendência (ou nome) nobre. Não importa se é um crápula ou um imbecil, tendo nascido em berço de ouro será tratado de forma diferenciada e despreza com toda a força da alma aos demais, sem nome. Quando vemos filmes em que príncipes e princesas vivem em palácios ou casas senhoriais, encantados com os bons modos que demonstram e as belas roupas, não nos esqueçamos que aquilo se sustentava a partir da ideologia de que os muitos devem servir a uns poucos escolhidos por eles mesmos (os poucos) para postar-se no ápice da sociedade. Aquele príncipe tão digno, altivo e distinto, tão capaz de atitudes nobres, não trabalhava, e, no máximo, aprendera apenas a matar e a saquear (e isso era o seu conceito de dignidade).
Enquanto isso, os burgueses holandeses (e os franceses e de outros países) diligentemente construíam um mundo novo, onde o valor seria derivado do trabalho, do esforço, e não do nome. Eram preconceituosos, sim, mas nunca tanto quanto os aristocratas. Eles representaram a possibilidade da democracia no mundo moderno.

Os movimentos antiburguesia tendem a um comportamento democrático num primeiro momento, mas ao assumirem o poder tornam-se arremedos da aristocracia, quando começam a amar o poder, sempre em nome do povo. Na democracia pode ocorrer (e é frequente) uma degeneração onde quem ascende vira “aristocrata” passando a se considerar superior (porque ascendeu) e desejando preservar na família posses, títulos, cargos, recursos lançando mão de expedientes escusos muitas vezes.
Na União Soviética formou-se uma aristocracia burocrata (a Nomenklatura) e nos Estados Unidos os grandes trustes labutam no sentido de manter-se acima das leis.

Quando, no século passado, protestamos contra os valores burgueses, estávamos certos na medida em que tais valores careciam de revisão, adequação, purificar-se de determinadas injustiças, muitas delas, herança das ideias aristocráticas.

Tantos de nós que querem uma sociedade mais justa, tão frequentemente crê que um grupo (ou partido, ou um líder) será capaz de fazer a grande mudança. Mas quando acreditamos em um grupo, um partido, ou um líder, sem considerar aqueles que são contrários, ou olhando os demais como rebanho a ser liderado, estamos apenas retornando aos valores pré burgueses, involuindo em direção à aristocracia. Precisamos ir além da burguesia e não recuar ao passado.


Recebam um abraço burguês (rs) de Aureo Augusto.

domingo, 21 de agosto de 2016

MULHER É UM PROBLEMA

Nasci no Bairro do Uruguai, em Salvador, à época parte dos Alagados, que logo depois foi aterrado com o lixo produzido na cidade. Sou grato por ter estado ali boa parte de minha vida, lugar onde aprendi mais do que a ler e escrever. As brincadeiras infantis foram povoadas de notícias da vida dura de um bairro bem pobre com seu cheiro de mangue e chocolate (a fábrica de Chocolates Chadler derramava sua chaminé sobre o bairro).

Por isso aprendi também a ver um outro lado das coisas que os livros me ensinaram e vi que nem sempre o linguajar pulcro traduz a crueza rude do existir doce.

Talvez por isso também me sinto tão bem conversando com as pessoas ditas “do povo” e foi assim que um amigo se aproximou para papear (desabafar): “Mulher é um pobrema” e desandou a comentar os jeitos de sua amada esposa (amada sim, pois o amor, como alguém disse, é “apesar de” e não “porque isso ou aquilo”). Ri e perguntei-lhe se quando chegava em casa guardava cuidadosamente a roupa suja ou se deixava em qualquer lugar, e os arreios do cavalo, as botas... Claro que largava tudo à toa! Comentei que ele é um problema. Como a conversa se adiantava sob o signo do riso leve, a coisa seguiu em alegria e tranquilidade com comentários jocosos de parte a parte; lembrei de várias outras conversas que mantive em rodas com amigos. Reproduzo aqui como se fosse um único papo e como se fosse com aquele mesmo amigo do qual acabo de contar e incluo algumas reações dos interlocutores.

Disse: Pois sim, mulher é um problema, mas você está sempre atrás delas, parece que você é maluco e gosta de problema. Se mulher é problema, porque não vai viver com homem? Todo mundo ri com esse comentário – é uma graça!

Provoco: Eu, em particular, gosto muito de mulher, é muito legal encontrar seios fartos e não uma tábua, ou apalpando mais embaixo dar de sentir um vazio delicioso e morno, já quem apalpa um homem encontrará o cheio; não que eu desaprove a quem sendo homem goste de homem – risos pra todo lado, alguns um pouco nervosos – continuo: Isso é algo que merece todo o nosso respeito, pois o prazer é uma coisa que não depende de regra e se alguém tem prazer no semelhante, pra que o obrigaremos a manter o prazer no diferente contra o próprio senso? (cenhos franzidos, risos baixos, cabeças balançando para os lados, cabeças balançando acenando com um sim, dúvidas se manifestam em alguns semblantes...).

Sigo: Mas a verdade é que mulher é um problema... e uma solução; homem igual. Todo problema traz em si sua resposta certa. David Kahane nos ensina que quem não é parte do problema não será também parte da solução, e está coberto de razão.
Acrescento: Continue dizendo que o problema está nela e viverá atrás da fantasia da mulher perfeita decepcionando-se todo o sempre e sempre perseguindo fantasmas lá fora quando eles moram cá dentro. Pode ser até que encontre uma mulher que apenas silencie, curve a cabeça, não se queixe, então ou é depressiva ou dissimulada. E em ambos os casos vai rolar merda – sorrisos de aprovação, rostos preocupados, olhares postos no horizonte.

Vai daí que vale olhar para si e olhar para ela com o amor que nós temos. Dizer o que sentimos e não diagnosticar nela a doença que pode até estar nela, mas seguramente está em nós. E isso vale também para as mulheres que falam mal dos seus maridos (expressivos “sim” com a cabeça, rostos falando silenciosamente de decisões, bocas fechadas dizendo que nada disso pode ser aplicado, olhares decididos para um lado ou outro – cada um no seu processo).


Recebam um abraço gilânico de Aureo Augusto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

COMO ANDA A (minha) SAÚDE

Delícia o apoio que tenho recebido de tantas pessoas que se ocuparam de minha saúde nesses últimos dias. É maravilhoso se sentir pertencente a uma rede tão boa, constituída de gente, conselhos, luz, carinho... E mais uma vez mando as notícias de como as coisas estão acontecendo.

Em 2/8/16 fui submetido a uma uretrorenolitotripsia flexível a laser com duplo jota. O nome me encanta, o que não impediu de sentir medo e pelas medicações que me aplicaram durante o procedimento (estava anestesiado dormindo), essa covardia se manifestou sob a forma de agitação, vômitos e pressão alta. O medo é esperado, dada a minha natureza pouco corajosa, também se consideramos que não estou habituado a dormir em um lugar estranho com pessoas me futucando por dentro – ainda que com boas intenções.
O Dr. José do Egypto fez muito bem o seu trabalho, e meu rim esquerdo logo se viu liberado para trabalhar fluidamente. No entanto, após 3 horas não foi possível romper toda a pedra. Coisa séria! Era um enorme paralelepípedo que apresentava no lado de uma de suas extremidades uma grande protuberância. Pelo menos ficou reduzido a algo em torno de 1cm de diâmetro (sem contar a outra de ½ cm). 

O médico sugeriu que eu fizesse complementarmente uma litotripsia externa. Aí sim que é de lascar. Fui atendido por um médico muito agradável e simpático, Dr. Bastos, filho de um médico de Seabra, Dr. Bastos, a quem conheço desde longa data. Fui a uma sala simples com um aparelho globoso que encostou em meu dorso e durante 20 minutos o pau comeu! Era como se eu fosse um lutador de boxe subnutrido, apanhando no rim em uma luta na qual só desejava o fim do round. Ainda bem que Zezé Camarão (minha namorada) estava comigo, segurando minha mão (a esta altura suada) e com seu humor compreensivo conseguiu arrancar de mim sonoras gargalhadas – interrompidas de vez em quando por um murro ou outro mais forte – com assuntos escolhidos a dedo para permitir que a pancadaria não repercutisse tanto em meu humor.
Uma ultrassonografia dias depois mostrou que a surra não resultou em sucesso, assim vou cair de novo na porrada. Tomara eu esteja melhor preparado, pois na primeira luta não tive o pudor de pedir arrego (não adiantou).

Claro que alguém perguntará o porquê de todo esse sofrimento. Pergunto-me também. Tenho meditado muito e cheguei a interessantes conclusões – tantas que não caberiam aqui nesse pequeno informativo – e dentre elas notei que a vida é para ser vivida. Esse é o seu principal sentido. Obvio, né? Mas nem sempre o obvio é atualizado aqui nesse presente que é estar na Terra.
Sim, nunca senti tão dentro de mim como carecemos dessa vital necessidade de (redundantemente) viver e nada mais. Nada mais? Sim e não, como sempre. Estamos aqui para experimentar a experiência de estar aqui, experimentar em cada uma das coisas que rolam, estar presente na dor, no amor, numa boa trepada, na decepção profunda, na alegria...

Aquela frase que se diz nos casamentos sobre ser fiel e estar com o outro na alegria e na tristeza etc. Sim, fidelidade ao fato de ser, de existir. Não é fácil. Inclusive porque essa fidelidade implica necessariamente no reconhecimento de que não somos isolados e sim fruto das relações com o entorno, vai daí que que não cabe um reles egoísmo. Somos na medida em que somos produtos de interações que vão desde o que nossos pais fizeram um dia na cama, até o que o mundo nos reserva em suas curvas... Pensei essas coisas e sigo pensando (surpreendi-me ao ver escrito “o sentido da vida é viver” em uma página da última revista Planeta – numa interessante coincidência).

Quero que saibam que saber que não somos essenciais e sim parte das relações universais é algo bastante nutridor e que vocês todos me sinalizam isso quando me olham amorosa e compreensivamente nesse momento onde às vezes o desconforto diz da minha humanidade.

Recebam um abraço grato de Aureo Augusto

segunda-feira, 25 de julho de 2016

GOSTO DE ABRIR JANELAS

GOSTO DE ABRIR JANELAS

Gosto de abrir janelas!

Hoje amanheceu frio de doer as canelas.
Aí abri a janela do atelier. Nossa! A luz invadiu profusamente a casa, tomando todos os cantos, desenhando o contorno dos livros, tomando meus olhos de assalto. Respirei fundo enquanto me deliciava, pois, a Serra da Larguinha, no Leste, estava envolta na névoa, bonita em seu lençol branco e o orvalho gélido pingava leve do telhado e da ponta das folhas quietas.

O ar frio entrou com a luz e senti uma coisa boa tomando conta de meus pulmões acostumados ao rumor obscuro da casa silente.

Deixei-me um pouco na janela acostumando os olhos à beleza... aí corri para o comedor e abri sua janela – outro ângulo do mundo, mais a rés do chão – e o limoeiro ali estava com suas folhas brilhando nugget (aquela pasta de sapato), úmido, frio e, diria, sorridente. O mato se espreguiçava aos primeiros raios da luz de um sol perdido na névoa, lá em cima, no andar de cima de casa.

Gosto de abrir janelas!
Inclusive quando converso com os estudantes que vêm fazer estágio aqui no posto, ou com meus filhos, amigos e amigas jovens (de corpo ou alma), ou quando penso nos acontecimentos que o mundo e o tempo me brindam, percebo aqui em meu corpo janelas me apresentando a luz da manhã, nem sempre é indolor, mas sempre gosto de que janelas se abram!

Recebam o meu prazer janelístico.


sábado, 16 de julho de 2016

ESTÁGIOS NA UNIDADE DE SAÚDE DO VALE DO CAPÃO

Nesse momento contamos com três estagiários da Faculdade Medicina da Universidade Federal da Bahia e mais uma aluna de medicina da Faculté de Médicine de Purpan da Université Paul-Sabatier (Toulouse-França).
Desde há 2 anos e meio, temos recebido regularmente estudantes da UFBA, mas logo depois do primeiro grupo de estagiários (1 a 4 de cada vez) começaram a surgir solicitações de outros estados do Brasil, principalmente de Pernambuco (Recife e Petrolina), mas também de Sergipe, Rio Grande do Sul e Paraíba. Alguns desses estagiários são estudantes, outros são médicos fazendo mestrado em Saúde da Família.

Os estágios são um mergulho na vida da unidade e mesmo uma inserção vivencial no dia-a-dia de uma comunidade bem interessante como é o povoado do Vale do Capão, local em que está situada a sede da USF de Caeté-Açu. Trata-se de uma comunidade rural, no passado dedicada ao garimpo de diamante e à produção de café e banana para comercialização. Também havia pêssego, marmelo, nêspera (que o povo chama de ameixa), jaca, manga, aipim, abacate etc. vendidos em Palmeiras (sede do município) ou em Lençóis (cidade próxima). Porém recentemente suas belezas naturais atraíram a atenção de pessoas de todo o mundo o que implicou em um ressurgimento econômico, já que, com a queda da produção diamantífera e a erradicação dos cafezais (promovida pelo governo federal no século passado), a economia decaiu substancialmente. Hoje os nativos que emigraram estão voltando e muitas pessoas de diversas nacionalidades imigram para viver aqui, resultando em uma sociedade peculiar, rica e diversificada, que é um desafio e uma alegria para a equipe da USF.

Os estagiários experimentam as seguintes atividades:
·         Reuniões de equipe que acontecem todas as sextas a partir das 8 horas, quando planejamos as atividades, são dadas as notícias e comunicações, as agentes comunitárias de saúde relatam as necessidades específicas de suas áreas para que haja o planejamento de ações focadas, definição das atividades a serem realizadas e planejamento das mesmas com distribuição de tarefas (das quais os estagiários participam), entre outras.
·         Participação em todas as atividades do posto, tais como, pré-consultas, recepção, atividades burocráticas, em sistema de rodízio.
·         Participação em consultas médicas ambulatoriais, bem como nas visitas domiciliares efetuadas pelo médico.
·         Participação em consultas de enfermagem, bem como nas visitas domiciliares realizadas pela enfermeira.
·         Acompanhamento das agentes comunitárias de saúde nas visitas domiciliares.
·         Atividades educativas na modalidade Sala de Espera ou nas escolas pública e comunitárias locais.
·         Participação nos grupos realizados no posto (Grupo de Ginástica para Idosas com Roda de Conversa, Grupo de Pessoas em sofrimento psíquico, grupo Se Liga no Peso...)
·         Participação em atividades pontuais, quando as mesmas acontecem no período do estágio, tais como Dia do Homem (com palestras, teatro, campeonato de sinuca e dominó etc.), Dia do Mulher, entre outras.
·         Podem ser convidados a falar no programa da USF na rádio comunitária local.
·         Curso de Introdução às Práticas Integrativas e Complementares, com ênfase no neohipocratismo (naturopatia), proferido pelo médico do posto.

Caso você tenha interesse em participar, consulte seus professores e contate com Natália Souza, enfermeira e coordenadora do posto, natalia.a.souza@hotmail.com ou no telefone (75)33441030 (e fale com Wanessa Kelen, técnica administrativa. Até o presente temos recebido estagiários de técnicos em enfermagem e medicina, mas nos agradaria partilhar também com outras áreas.


Estamos lhe aguardando felizes para partilhar experiências e conhecimento.