sábado, 18 de fevereiro de 2017

Cê viu?

Você viu naquele dia o silêncio que havia no mundo quando o dia sorrateiro desceu leve sobre o mundo? Fui ao rio e não havia galo puxando a manhã. Os pássaros estavam inibidos e brincavam entre as folhas de buscar o de sempre pra comer, mas se as folhas buliam era por suas leves penas, não havia vento...

Desci ao rio no frio de sempre e a água fez de minha pele o prazer do frio. Foi quando ouvi uma folha seca farfalhar seu voo, cair ruidosamente aos meus ouvidos. Foi o testemunho do mundo silente, pois quem ouve folhas leves levemente caindo?


Voltei a casa sobre a relva úmida e gélida, não havia nada que me dissesse de nada ou ruído, parei. Então percebi a gravidade das árvores. Olhando-as me dei conta de que seu silêncio se havia extravasado e agora ocupava inconteste bruma e manhã, pássaros e serra. 

recebam um abraço de Aureo Augusto

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

AUREO AUGUSTO curso Teórico-Prático NATUREZA NA SAÚDE
Em Lothlorien (Vale do Capão), 21,22 e 23 de abril/2017

Um mergulho na Natureza, que inclui caminhadas, vivências, comida deliciosa e natural, experimentando saborear o Vale do Capão, um dos belos recantos desse nosso tão maravilhoso mundo.
Um passeio sobre a Natureza da Saúde, quando conversaremos sobre como fazer para gozar de SAÚDE por mais tempo, com um mínimo de despesa. Partilharemos conhecimentos sobre os processos que levam à doença e o que contribui para a manutenção da saúde.
Neste trabalho você entrará em contato com o Neohipocratismo (Naturopatia, Naturologia) que trabalha com os elementos da NATUREZA (água, ar, terra...) com o intuito de recuperar e manter a SAÚDE.
Carga horaria: 26 hrs
Inclui: curso; hospedagem; alimentação; vivencias e passeios
informações:
Aureo Prieto de Azevedo- aureoprieto@gmail.com
Lothlorien Vale Do Capão- centro@lothlorien.org.br     telefones: (75) 3344-1122/1129



sábado, 4 de fevereiro de 2017

ASSASSINOS!

A questão é que não recebemos o salário de dezembro, nem o de janeiro parecia seguro. Boatos e desinformação demais, até porque a comunicação e informação nunca foram o forte do poder público em Palmeiras. O problema é que a maioria vive apenas do trabalho no posto, do salário desse trabalho e a dificuldade presente tem duas faces:
1.       O que fazer para pôr a comida na mesa?
2.       Precisamos saber de alguma coisa, o que está acontecendo? O que está sendo feito? quando teremos o nosso dinheiro?
Por isso a equipe foi conversar com o pessoal das finanças em Palmeiras e os documentos que vimos nos deixou perplexos e devastados.

Trabalho há cerca de 10 anos na Unidade de Saúde de Caeté-Açu e pela primeira vez tive vontade de pedir demissão – e Natália e Raí me disseram que pensaram a mesma coisa.
Pode ser que esteja sendo movido pela tristeza, ou pela raiva, ou os dois, mas também pode ser que minha próxima afirmativa seja a expressão da verdade:
O que de pior a humanidade gerou foi a classe política.

Muita coisa nos foi mostrada com a documentação a que tivemos acesso. Por exemplo: de julho de 2015 a agosto de 2016 a nossa parcela do INSS foi retirada do nosso salário, mas não foi repassada para o governo federal. Então naquele momento o prefeito da gestão passada negociou o parcelamento da dívida que superava dois milhões de reais. As parcelas eram altas e para completar assinou um termo de compromisso segundo o qual se ele deixasse de pagar por dois meses o dinheiro que o governo federal manda para as cidades, para suas despesas, poderia ser sequestrado. E aí ele não pagou os dois meses seguintes (novembro e dezembro), vai daí que em janeiro todo o FPM foi sequestrado e Palmeiras ficou sem ter dinheiro para pagar os funcionários. Natália, Raí, Neide, Roseli... Eu mesmo não recebi, como Filipe não recebeu, ou Mariana, enfim, como qualquer funcionário da saúde, ou de outras áreas. Somos pessoas e fizemos a nossa parte, mas que espécie de jogo é esse que se jogou com nossas vidas?

E já tínhamos outro sofrimento a perguntar por solução: Dois colegas da equipe tomaram empréstimo consignado. Seus nomes foram para o SPC no ano passado. É que a gestão anterior retirou o dinheiro dos salários para entregar aos bancos – MAS NÃO ENTREGOU. Qual o nome que se deve dar a isso? Improbidade ou apropriação indevida? Sei que o banco no qual eu fiz um empréstimo consignado deu um prazo à prefeitura até o dia 10 do corrente mês para se explicar e pagar. Mas, se o dinheiro foi sequestrado, como fará? Meu nome irá para o SPC. Mas todos os dias vou trabalhar e cumpro o meu papel, dou o melhor de mim e acredito que o contrato que tenho com a prefeitura faz dela credora de minha honra, mas a recíproca mostrou-se falsa. Cumpro eu a minha parte, nós, os funcionários, mantemos o funcionamento dos serviços. Por que somos castigados pelo que de correto fazemos?

Então, o que faremos? Dívidas que não contraímos, perdas pelas quais não nos podem responsabilizar, mas cobram já que nossos salários não estão em nossas mãos. Como pagaremos e como fazer para ter em mãos a feira, o mercado, o material escolar...

Talvez possamos chamar os políticos de assassinos, pois matam a nossa vontade de continuar dando o melhor de nós. Labutam para que nos tornemos tão podres como o coração amargo e hipócrita que lhes macula o peito.
Aureo Augusto (esse texto terá continuação em breve).


Obs: Tivemos um refresco, pois recebemos o salário de janeiro no dia 3/1, mas o assessor do financeiro nos alertou que se não conseguirem anular a cláusula que permite o sequestro do FPM, não se pode garantir pelos próximos meses.

domingo, 29 de janeiro de 2017

APOIO DOS AMIGOS

O ano passado (2016) foi um ano difícil para todos nós e em Palmeiras não foi diferente. Em realidade é como se não houvesse terminado, já que os funcionários municipais de Palmeiras não recebemos nosso salário de dezembro e a julgar pelas contas e pelas dificuldades pelas quais passa a prefeitura pode ser que tampouco recebamos janeiro.

No entanto conseguimos, graças à colaboração de tantos amigos, fechar o ano com a equipe completa, pois a “vaquinha” que fizemos deu para pagar a técnica em saúde bucal e a técnica de enfermagem, além de garantir o material do dentista que está funcionando – assim, além de agradecer a todos aqueles que nos ajudaram, peço que não depositem mais pois que já alcançamos o montante de recurso para os dois meses propostos.

Além disso, recebemos uma preciosa ajuda de duas fornecedoras de internet aqui no Capão, a Valandnet e a Capãonet que cederam graciosamente seus serviços ao posto de modo que estamos bem servidos nesta área, justo quando o governo criou o e-sus, um sistema de registro on line dos serviços que prestamos. Agradecemos a bondade dos empresários responsáveis por estes serviços, bem como a seus funcionários que sempre nos tratam com presteza e cuidado.

Por outro lado, visitou o Vale do Capão o senhor Dan Oren, israelense, que muito se interessou pela nossa unidade de saúde e reuniu um grupo de pessoas, comprou a fiação e fez com que os computadores do posto estivessem interligados em rede. Foi um trabalho realmente maravilhoso, pelo qual toda a equipe agradece de coração.
Na área de atendimentos, além do nosso trabalho habitual contamos com a colaboração de uma equipe de pessoas que se dedicam a um sistema terapêutico denominado Thetahealing, que vem contribuindo sobremaneira com os cuidados aos nossos usuários. Observamos felizes os resultados tão positivos que esta turma consegue com as pessoas que nos buscam.
Estão sendo realizadas no posto reuniões de Diksha, uma técnica oriental não vinculada a religiões para contribuir à paz no coração das pessoas, uma vez por semana.
Recebemos a inestimável ajuda de Renata que atende em auriculopuntura todas as quintas à tarde no posto, ampliando a oferta terapêutica e melhorando os resultados do nosso trabalho.
As técnicas de enfermagem Rosane de Oliveira e Rosângela de Almeida estão prestando serviço voluntário nos dias mais movimentados da nossa unidade (segundas, quartas e quintas) contribuindo para desafogar o atendimento de nossos vizinhos. Isso é o que se chama de “uma mão na roda”, excelente força para nós e para a comunidade.

E, embora – como disse acima – 2016 pareça que ainda não acabou por conta de certas dificuldades, 2017 já nos trouxe presentes excelentes:
Já estamos preparados para depois do carnaval receber o apoio inestimável das psicoterapeutas Vânia Meireles e Ana Flávia que atenderão uma vez por semana (uma em atendimento individual e outra em trabalho de grupo em bioenergética) nas dependências da USF de Caeté-Açu, também como voluntárias.

Assim, em que pese a triste questão relativa ao não recebimento de nosso salário, olhamos o futuro com o esperançar de que nos fala Paulo Freire e continuamos pondo o nosso coração ao lado do coração de nossos usuários para o bem da comunidade de Caeté-Açu (que abrange não apenas o Vale do Capão, como também Conceição dos Gatos, Rio Grande etc.).

Recebam o nosso abraço grato!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

2016

Finda um ano difícil. Para o mundo, para o Brasil, para a cidade de Palmeiras.
Aqui no Vale do Capão tivemos, do ponto de vista climático, uma amenização da seca que afeta o Nordeste há quase 10 anos. Foi um ano em que choveu com frequência, mas ainda não há sinais de que La Niña venha a substituir El Niño. Mesmo assim, esta presença maior de chuvas nos dá uma alegria em um ano onde “a política” foi terrível. O ano finda com a saída do atual prefeito que será substituído pelo eleito no último pleito.

Em sua saída, o atual prefeito nos brinda com um incremento das faltas que marcaram a gestão. Nestes quatro anos tivemos dois secretários que mostraram serviço, Aruanã e Andréa, respectivamente no turismo e na saúde. A última secretária de educação, Rosa, apesar de ser comprometida padeceu dos mesmos problemas que os demais: ausência de autonomia e de uma gestão bem orquestrada, e talvez, de excessiva filiação ao grupo governante – e os professores e estudantes sofreram; aqui no Vale do Capão os problemas variaram do transporte escolar, que obrigou a fechamento das aulas antecipadamente à degradação física da escola municipal e a falta de apoio à escola comunitária.

O gestor não conseguiu organizar uma agenda de realizações e tampouco nos brindou com uma governança coerente e consistente (com a pobreza, com as necessidades reais, com a continuidade, com a informação clara etc. do município). Difícil entender o que sucedeu, considerando-se sua formação e experiência. Eu, particularmente, não acredito em pura e simples corrupção, como querem alguns, uma imputação fácil, talvez demais. Alguns me falaram que deixou-se levar pelo senso de poder e não escutou conselhos pertinentes e perdeu de vista a realidade; outros comentam de seu dom especial para deixar-se levar pelo puxa-saquismo, dando atenção a quem não merecia, deixando de lado os colaboradores reais. Senti falta de diálogos sólidos, escuta; conversar com ele era uma luta, labuta vã, pois falava e falava, argumentava e deixava de perceber o que o interlocutor realmente queria. Gente do povo confirmou-me essa impressão. Essas coisas contam, indubitavelmente, mas não dizem tudo.

O fato é que finalizamos o ano sendo obrigados a, no posto de saúde, fazer uma campanha para arrecadar fundos com a finalidade de manter-se funcionando, o que é algo, para dizer o mínimo, triste. Contamos com amplo apoio e conseguimos os recursos de modo que funcionários exonerados puderam retornar e o material do dentista pôde ser comprado o que manteve o profissional em ação até o final deste dezembro cansativo.

Para nós, que trabalhamos na saúde, a vida não é realmente a coisa mais fácil do mundo. Em nosso posto há grande alegria todo o tempo. Muito riso, sorrisos nas faces e entusiasmo pelas atividades (que são muitas e que para serem realizadas frequentemente trabalhamos fora do horário pelo qual somos pagos). Mas detecto em mim e nos colegas um grande cansaço, um esgotamento e vejo que isso vem não apenas de um ano cheio (dia da criança; muitas palestras em sala de espera; dia do homem; consultas a mais do que o esperado em parte pelo aumento da população e dos visitantes sofrendo picadas de insetos, quedas, ferimentos...; grupos variados com rodas de conversa, tais como: idosos, se liga no peso, de pessoas com ansiedade e/ou sofrimento psíquico; atividades com estagiários de medicina, enfermagem, odontologia, assistência social entre outras atividades), mas também, dizia, o que nos esgota é não saber direito o que vai acontecer. Atrasos de pagamento, falta crônica de material e medicações, expulsão de colegas, esta sensação de que as coisas não estão minimamente seguras, e estar criando estratégias para preencher falhas e faltas que não são nossas... sinto-me cansado, exausto, desejando férias para repor as energias. Do mesmo jeito, todos.

É vero que nem tudo foi ruim, pois contamos com uma secretária de saúde (Andréa) accessível, dedicada, lutadora, mas que a nós, funcionários, parecia que atuava como se fosse uma “estranha no ninho” da governança, não tendo pleno conhecimento sequer do total dos recursos da sua pasta. O Conselho de Saúde funcionou marcantemente o que levou a alguns problemas com a gestão e, pasmem, com a direção da agremiação que congrega os funcionários, o qual não percebia o seu papel enquanto conselheiro dedicando-se a fazer oposição (coisa boa a oposição, mas tem o seu lugar) sem atentar para as normas.

Temos funcionários competentes em todas as áreas da saúde (parte deles expulsos no final da desta gestão) e contamos com nada menos que 4 médicos do programa Mais Médicos, todos originários de Cuba e muito bem capacitados. Mas não soubemos aproveitar isso adequadamente.
Aliás não conseguimos aproveitar programas do governo federal, além de promissores contatos com a secretaria estadual da saúde (um convênio não foi firmado porque um gestor anterior não prestou conta de R$70000,00 que havia recebido e, apesar do trabalho minucioso do Conselho de Saúde, o gestor atual não deu prosseguimento às disposições legais que permitiriam resolver o impedimento).
Esta é uma avaliação incompleta porque não se propõe a ser algo mais que um desabafo triste. Mais triste ainda por outra tristeza: nada disso é novo. Mais do mesmo de outros prefeitos que já aqui estiveram, uns melhores outros piores, mas...

Resta a esperança, não completamente passiva, um esperançar no dizer Freiriano, que é uma esperança ativa de gente que sabe lutar. Pelo menos aqui no Capão a comunidade assim se mostra e, portanto, vamos aguardar o próximo gestor e ver dele e nele o que nos trará de sua parte, pois da nossa, de trabalho não fugimos.

Em 28 de dezembro de 2016, recebam um abraço triste de Aureo Augusto.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O RANÇO ARISTOCRÁTICO

Fui e sou testemunha, tanto na qualidade de mero observador, como na condição de participante efetivo, de diversos movimentos de variadas matizes que buscam melhorar – alguns sinceramente, outros não – o mundo.
Quando jovem frequentei assustado o diretório acadêmico do Colégio Central da Bahia, onde cursei o científico. Foi uma época de perseguições e os militares me metiam um medo tão atroz quanto o que sentia dos líderes do diretório com seu pregão religioso anti-imperialista. Tudo bem, sou um cara medroso e por isso seguramente poucos da minha geração tiveram o mesmo grau de susto. No entanto, lembro-me que os militares estavam defendendo a democracia, contra os comunistas insanos e os líderes do diretório defendiam a democracia contra os militares que na realidade defendiam a burguesia.
A burguesia naquela época para mim era uma coisa perversa, responsável pela pobreza e pela exploração do homem pelo homem – é assim que se dizia. Depois que a mulher foi incluída na conta dos despossuídos.
O capitalismo, instrumento burguês de dominação, era a fonte de todo o mal e isso era indiscutível no meio em que eu frequentei a partir daí, e era indiscutível porque na verdade não era discutido. Resolvi ler Marx, o Capital, e me esforcei, mas me perdi o tempo todo. E, o pessoal que militava nas hostes do bem não o havia lido, exceto um único colega, que conversava muito comigo e me ensinava e esmiuçava Hegel, Engels, Marx, muito mais fácil que a leitura. Lembro-me dele, magro, curvo, nariz aquilino, pele clara como impensável em um baiano daquela época, bem intencionado até a medula, o único que realmente sabia o que falava e como tal rejeitado tanto à direita quanto à esquerda (da qual queria participar sem sucesso). A dificuldade que eu encontrava em estar a seu lado era que ele era excessivamente estudioso – e todos os excessivamente estudiosos passam pelo dilema que foi a vida de Hamlet – e eu um tanto preguiçoso e ademais lia e relia a Anatomia da Paz de Emery Reves.

Por alguma insanidade eu queria a paz. É fácil dizer que isso era porque eu era e sou um covarde, nada pronto pra uma briga. Seguramente essa característica teve seu papel, mas seria reducionismo alheio à verdade outorgar a apenas isso o meu pacifismo precoce. No plano pessoal isso era seguro, mas no plano geral, social digamos, até que era corajoso, pois estava na contramão de tantos ao meu redor que progrediam desde as brigas de turmas de rua, até a propaganda revolucionária (tanto a favor quanto contra o regime militar).
Naquele tempo eu me sentia tendo que escolher entre os militares que me tiraram tantos dos meus amigos (amigos dos quais admirava a coragem), ou os militantes de esquerda que me remetiam aos pogroms soviéticos, à invasão da Hungria e ao esmagamento da Primavera de Praga... Hoje as coisas são algo diferentes, mas não tanto a mais quanto gostaria.

Ocorre-me que temos um tremendo medo de reconhecer a diferença como essencial à vida social, como aliás vem pregando com algum sucesso o pensador Leandro Karnal. Deveríamos observar mais cuidadosamente a biologia. Onde há maior diversidade há mais resiliência e resistência ambiental. O Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, estava se degradando ecologicamente e ninguém conseguia saber o porquê. A reintrodução dos lobos fez o parque voltar à vitalidade. Eles controlaram a população de certos herbívoros que antes se proliferavam e acabaram com a vegetação rasteira na beira dos rios e córregos.

Na nossa vida social e no relacionamento dentro da sociedade precisamos de todos os tipos de gente, ou, dito melhor e mais acertadamente, de todos os tipos de opiniões. E, a oposição a um governo, se exercida em boa-fé (imploro que leiam sobre a boa-fé no “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” de Comte-Sponville), e principalmente se o governo é exercido em boa-fé é absolutamente essencial e necessária para o bom andamento da coisa pública.

Mas o que vi foi um desastre patrocinado por uma elite ciosa de seu mundinho de regalias às custas de todo um povo laborando em condições frequentemente insalubres auferindo salários ignóbeis. O Brasil entrou numa espécie de Idade Média, da qual a muito custo tateamos para sair e, as notícias que vêm de Brasília não são nem um pouco alvissareiras. Pois conquanto nós, o povo, continuamos tateando para sair, outros, que podemos chamar de “elite” às claras ou disfarçadamente tudo faz com o intuito consciente ou não de manter tudo como está, ou seja, na contramão da diversidade.
Podemos chamar de “elite” não apenas quem nasceu em berço de ouro, mas também quem o conquistou, por vias políticas ou por labuta, mas que assume uma postura classista (disfarçada ou não) – e veja que existem pessoas muito ricas que não fazem parte dessa “elite”.

Isso não ocorre porque capitalismo, ou porque comunismo, ou porque falta religião ou porque insanos. Em alguma parte de todo o processo o economicismo acabou por suplantar o cuidado do com o povo ou com a coisa pública. Não se governa pelo bem das pessoas e sim pelo bem da economia, enquanto esse “bem” mantém, por exemplo, grupos muito ricos tendo suas dívidas perdoadas para manter o funcionamento do sistema, enquanto gastos com a saúde ou a educação dos mais pobres são denunciados como abusos socialistas.

O que temos é uma junção de um equívoco, onde as pessoas são esquecidas, com a má fé de políticos e seus asseclas em um verdadeiro complô contra uma possível democracia diversificada e bela.

Vamos ver aonde isso vai chegar.

sábado, 3 de dezembro de 2016

CUIDADO DOS MORTOS

Muitas pessoas do meu conhecimento ficaram chocadas com a insensibilidade do Congresso Nacional frente ao acidente aeronáutico que levou à morte de esportistas do Chapecoense. A Colômbia fez uma bela cerimônia por conta do luto e até o serviço diplomático de outros países enviou pêsames ao governo brasileiro, o qual manteve-se praticamente como se nada acontecesse.

No entanto, se bem notamos, o Congresso e o Executivo nacionais demonstram bem pouca preocupação pelo povo, ou pelos acontecimentos que afligem à nação. Não há apreço pelo ser humano que vive na lide diária buscando o “pão nosso de cada dia”. O povo é lembrado em época de eleição ou faz-se um teatro de baixa qualidade no cotidiano político, onde os atores (deputados, senadores, presidentes...) executam uma pantomima tentando convencer às pessoas da veracidade de suas preocupações, induzindo-nos a crer que estas preocupações dizem respeito à pátria ou ao povo que mantém a pátria. Na realidade a preocupação resume-se a manter-se no cargo e ampliar as benesses que este pode trazer.
Parodiando Oscar Wilde in “O Retrato de Dorian Gray”, eu diria que a classe política, de regra, é como se fosse os produtos de uma loja de quinquilharias com todos os preços acima da tabela – ou do seu real valor. Sérios presidentes da república se sucedem, vetustos presidentes da câmara e do senado, nobres deputados e senadores, vereança – um bando de mendigos morais pavoneando-se qual cardeais da alta cúpula de uma opulenta igreja.

E a nós? Cabe-nos o silêncio mormacento dos dias de labuta tentando construir uma vida decente sob tributação indecente que mantém quadrilhas que se alternam no poder.
Não estranhemos a displicência para com parentes e amigos dos mortos, afinal, em alguma medida todos nós, gente comum, não passamos de mortos para a sanha dos abutres que se locupletam da nossa impotência.
Porém, não creio que os mortos serão sempre mortos. Em que pese o formol que conserva o cadáver político em nosso país, como no livro Incidente em Antares de Érico Veríssimo, os mortos sairão a caminhar.

Caminhamos, enquanto o tempo passa, nós, as pessoas comuns aprendemos. Aos poucos vamos olhando com olhar crítico o que nos diz a imprensa, os discursos dos políticos e seus atos, a lógica de uma economia centrada no lucro e nos que auferem os lucros.... Devagar, evolutivamente, aprenderemos a dizer não.

Os abutres políticos desdenham do tempo porque creem que vivem da morte (o silêncio das consciências), desprezam os ciclos da vida porque alimentam-se daquilo que aparentemente não muda (a desmemoria de nossa gente), desconhecem a evolução porque apoiam-se na estabilidade da ignorância que eles fomentam em segredo (a educação que produz disfuncionais).

E apesar de suas verdades elaboradas na mentira, os políticos verão o mudar dos tempos. E verão que eles são os cadáveres de sua própria imoralidade.
Sei que nem todos são bandidos, mas a maioria é, e, mesmo assim, com essa maioria, não conseguem conter a mudança que se frágua em segredo e a maioria um dia será minoria. Aguardemos.


Recebam um abraço revoltado de Aureo Augusto

terça-feira, 15 de novembro de 2016

PITANGAS


Escrevi este texto no dia 18/9/16, mas antes de publicar fui alertado da morte (e das piadas sem consideração pelo sofrimento das famílias) de um ator da Globo quando se banhava no São Francisco na companhia de Camila Pitanga. Então não quis publicar naquele momento e o faço agora:
No quintal as pitangueiras estão carregadas exibindo tons de verde, amarelo, alaranjado, vermelho e roxo deliciosos com os quais acabo de me empanturrar. As pitangueiras carregadas me remetem ao tempo em que minha filha caçula era pequena. Um dia pilhei-a no terreno de um vizinho dependurada em um galho ridiculamente fino no afã e alcançar mais uma das frutinhas vermelhas. Depenou a pequena planta. E satisfeita foi pra casa – ela não me viu. Aliás, essa minha filha era terrível. Quando saía da escola, no caminho de casa eram muitos os desvios para visitar as diversas frutíferas, que sabia de todas, e das temporadas de cada fruta. Comia a mais não poder e quando chegava em casa dizia que estava sem fome – não sabia porque, dizia com a cara mais inocente do mundo – e não adiantava eu dizer que deixasse pra comer as frutas em outro momento.
Ainda bem que nesta tarde ela não estava em casa, pois mesmo agora, já crescida, continua amante das belas e deliciosas pitangas. Comi sem concorrência.

Sou instado a dizer dela que é uma planta humilde, e é. Tranquila e silenciosa, produz suas pequenas frutas quase que desapercebidamente e sua beleza e o discreto perfume de suas folhas passam em branco para muita gente. No entanto é uma das nossas mais maravilhosas plantas.
Quando ouvimos falar em licopene, antioxidante cuja presença reduz a possibilidade de câncer de próstata, pensamos logo em tomates, mas você sabia que a pitanga tem mais licopene que o tomate? E tem também nas folhas, daí o chá delas ser útil também para isso.

A planta, ou a infusão das folhas ajuda no tratamento de hipertensão, problemas do estômago, obesidade, reumatismo, bronquite – é anti-inflamatória, antioxidante, diurética e calmante, já pensou?
Devemos usar 1 colher de sopa da folha seca ou 2 colheres de sopa da folha verde para uma xícara de água fervendo que deve ser derramada sobre as folhas e deixar no infuso por 10 minutos. O correto é tomar 3 vezes ao dia, ou seja, de 8 em 8 horas.

Também é bactericida (contra Staphylococcus aureus e Escherichia coli, porém moderadamente, podendo, portanto, ser coadjuvante no tratamento daqueles que estão em uso de antibióticos) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em parceria com a Embrapa e a Universidade da Carolina do Sul estão estudando o extrato do fruto para tratamento de câncer, principalmente de cólon (intestino grosso).


Lembro de quando era menino, havia o dia de algum santo ou santa na igreja católica e os ônibus e as carroças eram enfeitados com galhos de pitangueira. Era uma coisa bonita de se ver. Naquela época eu não sabia que aquelas folhas cheirosas e seus frutos saborosos são uma dádiva para a humanidade.

Recebam um abraço pitanguico de Aureo Augusto

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O PROFESSOR DESNUDO

Tenho tido alguma experiência com ensinar e graças a um projeto de educação pública que se espalhou por várias cidades da Chapada Diamantina e mais além (do qual participei, não como educador, e sim principalmente como mobilizador) contatei uma infinidade de professores e estudantes, convivi com eles e também com coordenadores pedagógicos e seus formadores, o que me foi bastante educativo tendo influenciado sobremaneira a forma como atuo em medicina.

Recentemente, além dos cursos que profiro periodicamente estou atuando como preceptor de estudantes de medicina, odontologia, enfermagem e mesmo mestrandos em saúde da família, que estagiam na Unidade de Saúde da Família de Caeté-Açu, no Vale do Capão, zona rural de Palmeiras-BA, unidade de saúde da qual sou parte da equipe. Aqui, os estagiários vivenciam uma equipe e uma comunidade, proporcionando experiências únicas, para a equipe e para os estudantes.

Estas experiências me colocam em uma peculiar posição de permanente reavaliação do meu próprio trabalho.
Questiono-me.
Ensinar, percebo, é algo íntimo. Pessoal. E ambas as coisas, ensinar e aprender, são completamente imbricadas.

Sinto-me tremendamente permeável ao escrutínio desses jovens e essa permeabilidade, noto, é o que me permite aprender deles, talvez mais até do que eles aprendem de mim. Eles, por sua vez, tanto mais colocam-se permeáveis tanto mais captam um algo além das palavras, das notícias de tratamentos e seus resultados. Pondo-se aquém da distância, somos juntos, justos aprendizes, completos em nossas metades.

Pergunto a mim mesmo como é possível ensinar sem me expor. Como é possível que um professor não mostre a própria alma quando diz do si que é seu conhecimento e experiência, como é possível ensinar se o professor não se põe como alguém que está exposto, aberto qual livro, um dos livros prescritos.

Sento-me diante desses jovens que me guiam pelos meandros da internet na busca dos protocolos estabelecidos e dos mais recentes trabalhos dizendo o que é isso ou aquilo dos sintomas e sinais que nos regala a gente que nos diz de si e de suas dores. Esses jovens às portas de se formar (em sua maioria) com seus olhos brilhantes e corações apertados, tanto quanto eu, com tanto a aprender e tanta responsabilidade a assumir.

Sinto-me nu. Eles me olham como o livro que sou e querem algo que nem sempre dou, não porque não queira oferecer, mas porque nem sempre alcanço o tamanho do que eles desejam. Mas também no ato de me oferecer pleno e nu, expondo as páginas de minha vida e os tesouros do que aprendi, respostas brotam como desafios.

E esta via tem duas mãos e é assim que a nudez nem sempre tão explícita deles, expostos com esta exposição (nem sempre consciente) dos jovens (de todas as idades) me alcança trazendo respostas até para perguntas que eu mesmo não fiz, respostas que brotam como desafios.

Recebam um abraço estudantil de Aureo Augusto

 

sábado, 22 de outubro de 2016

A USF DE CAETÉ-AÇU PEDE SOCORRO

Recebemos comunicado da prefeitura de Palmeiras que em razão da necessidade de ajustar as contas foram tomadas decisões que implicaram na demissão de dois funcionários essenciais ao funcionamento da unidade de saúde, quais sejam, a técnica em saúde bucal e a técnica administrativa e, ademais, o material do dentista não mais será enviado ao posto, entre outras coisas.

Em reunião a equipe considerou que o atendimento não pode continuar sem estas duas funcionárias e sem o material, mas, por outro lado, queremos seguir prestando o serviço que é a missão de nossa equipe: cuidar, dentro das nossas possibilidades, da comunidade.

Então decidimos lançar um pedido público para que possamos funcionar até dezembro. Pedimos às pessoas que conhecem o trabalho dessa unidade que depositem o que puderem na conta abaixo e assim contribuam para que possamos seguir com o nosso trabalho.
Calculamos que vamos necessitar de R$2400,00 por mês (4800 no total), e isso inclui o recurso necessário para as funcionárias e o material do dentista.

Entendemos que cabe ao poder público organizar os recursos que aufere para manter o funcionamento normal dos serviços de saúde, e não queremos substituir a gestão municipal, porém entendemos também que se trata de manter provisoriamente o serviço funcionando. Não pretendemos que isso se estenda por mais que esses dois meses.

A Associação de Pais Educadores e Agricultores de Caeté-Açu disponibilizou sua conta para receber as doações de qualquer valor:
Banco BRADESCO
Número da agência: 1087
Número da conta: 3590-4
ATENÇÃO: PARA DISTINGUIR AS DOAÇÕES PEDIMOS QUE OS DEPÓSITOS SEJAM IDENTIFICADOS, assim o pessoal da associação vai saber que é destinado a nós.

Somos gratos a todos aqueles que queiram contribuir com o nosso serviço, lembrando que isso é pelo bem de nossa comunidade. Prestaremos conta do uso do dinheiro aqui mesmo no fb.

Aureo Augusto p/equipe da USF de CAETÉ-AÇU